Primeiro pensei que em O Grande Gastby (The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, 1925), Gatsby, o enigmático personagem-título da história, pagara o preço por querer algo mais profundo em um mundo de aparências… Depois de reler o livro, e prestar mais atenção ao final, agora penso que Jay Gatsby queria a fachada de todas as fachadas; ele sonhara tanto tempo com aquilo e o planejara com tanto esmero que já não poderia ser qualquer outra coisa, mesmo com tanto em risco.

Presumo que o leitor do Clássicos Universais já tenha lido a novela de Fitzgerald. Caso contrário, sugiro que o leia e somente então termine este texto. O livro é apaixonante, vivo e salvou-me do marasmo de uma série de leituras menos empolgantes. Seu brilho não diminui numa segunda leitura e creio que não diminuirá numa terceira, quarta, quinta…

O autor conta a história através de Nick Carraway, então à beira dos trinta anos, que descreve os fatos muito tempo depois do acontecimento dos mesmos. O motivo pelo qual ele escreve sobre o que acontecera nunca é especificado, mas podemos supor que seja um favor ou uma homenagem a Gatsby. A narração de Nick só incomoda nas poucas vezes em que ele se refere ao fato de estar a escrever, no entanto essas passagens são breves e logo estamos no meio de uma nova cena repleta de emoção.

É por Nick que conhecemos os demais personagens. Ele se define como um homem que não julga os outros, pelo menos não na frente deles, pois deixa escapar alguns comentários ásperos sobre eles ao longo da escrita, o que faz com que certas pessoas revelem-se para ele. Por meio dele conhecemos Daisy, sua prima, e Tom, o marido dela. Conhecemos também Jordan Baker, por quem me apaixonei ao ler, e por fim Gatsby. À exceção de Nick, os demais vivem em opulência e recendem a dinheiro, sobretudo Gatsby.

A escolha de Nick para narrador é bastante acertada, pois qualquer outro que a narrasse faria desandar a obra e o deslumbramento de Nick é o nosso deslumbramento. Se fosse Gastby ou Daisy que tivessem a voz, tudo poderia descambar para um romance barato. Um narrador onisciente também seria mau, porque não haveria qualquer mistério.

As descrições dos ambientes e das pessoas é envolvente. Até agora nenhum beat me fez sentir tanto vigor em uma cena de bebedeira. Luzes, música, roupas, gestos, falas… tudo é um espetáculo maravilhoso. Para um livro tão curto, apenas 192 páginas na versão inglesa da Penguin, há um bocado de descrições. Pessoalmente, gosto de descrições; não daquelas exageradas como as de Balzac, onde ele passa duas ou três páginas a descrever uma única cadeira, mas aquelas em que há o detalhamento suficiente para acompanhar a velocidade da ação.

As festas na mansão de Gatsby são relatadas de uma maneira vibrante. Depois, outras duas cenas de grande tensão são grandes lições de como ambientar uma cena. Tanto a bebedeira no apartamento de Myrtle quanto toda a sequência do dia quente, desde o almoço na casa de Tom e Daisy, até a discussão no quarto de hotel e enfim o acidente que leva ao fim trágico da novela são cenas sentidas na pele de quem as lê.

De volta para a história, duas coisas que poderiam ser esperadas e no fim não fazem tanta falta se não explicitadas são a resposta para enigma de quem realmente é Jay Gatsby (ou como ele se tornou Gatsby) e algum detalhe dos encontros entre ele e Daisy. Como esse não é o foco de Fitzgerald, ficamos gratos pelo suspense em que nos mantém e continuamos com a luta dos personagens para salvarem suas aparências.

No fim do livro ainda fica aquela dúvida; Gatsby amava Daisy ou tudo quanto ela representava, a vida que ele tanto desejara para si? Os dois, eu suponho. Gatsby queria que a riqueza o aceitasse, como se estivesse predestinado a ser Gatsby e sua vida anterior fora um mero estágio de sua evolução. E é por tudo que Daisy representava para ele que não a entregou após o acidente. Abrir mão de Daisy era também abrir mão de ser Gatsby e ele não queria ser nada além disso. O homem pagou o preço pela riqueza.

De O Grande Gatsby só não gostei de Nick ter dispensado Jordan. Como disse, enamorei-me dela. Pouco antes do acidente, quando as mãos dela e de Nick se unem, fica como o único momento de verdadeira doçura na novela. Bem, creio que a separação deles faça sentido no contexto do livro.

Leia também: O Apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger

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