O Homem Elefante, de David Lynch

“Were I so tall to reach the pole,
Or grasp the ocean with my span,
I must be measur’d by my soul:
The mind’s the stan­dard of the man.”
– Isaac Watts.

O Homem Elefante (The Elephant Man, 1980), dirigido por David Lynch e estrelado por Anthony Hopkins, John Hurt – no papel-título – e Anne Bancroft, carrega as marcas de uma grande obra de arte. Poucos filmes podem se jactar de se manterem tão fiéis à proposta traçada e de se mostrarem tão completos em termos de período narrativo. Não é de interesse do Classicista comparar exaustivamente o filme com a história de Joseph Merrick, o verdadeiro Elephant Man, por isso ficará a encargo do leitor pesquisar mais a respeito, se tiver vontade.

Todo o filme gira em torno do mesmo ponto: o espetáculo. Para isso talvez não haja realizador mais adequado do que Lynch, cuja inserção de espetáculos dentro da exibição cinematográfica sempre é importante para o desenvolvimento da trama, como o voyeurismo e as canções de O Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), e o Club Silencio de Cidade dos Sonhos (Mulholland Dr., 2001), embora ambos venham depois em sua filmografia. O que se quer dizer é que, em se tratar de representações, Lynch é mestre.

Elephant man - great spectacle

A diferença de The Elephant Man para os títulos posteriores é que o espetáculo não é apenas um momento crucial do roteiro, é também sua própria essência. Conta a história de John Merrick, um homem cujo passado é desconhecido e que sofre de má formação física. Merrick é maltratado por seu empresário enquanto é exibido como aberração num desses freak shows.

Elephant man - medical spectacle

Depois de passar à guarda de um médico, Frederick Treves (Hopkins), John se transforma numa atração clínica. Note-se que até esse instante somos tomados pelo mistério da figura deformada, à qual somos apresentados somente após meia hora de projeção.

Elephant man - first apearence

Concomitantemente ao susto, a surpresa: Merrick é dotado, a despeito de suas dificuldades físicas, de profunda sensibilidade e considerável inteligência. Este filme deveria ser obrigatório nas aulas de Português, ou pelo menos nos cursos de Retórica, porque nos mostra que somente através da arte da comunicação o Homem deixa de ser um espetáculo bestial e torna-se humano. É pela sua capacidade de bem expressar-se que (quiçá) relevamos a aparência externa do personagem e o percebemos como indivíduo.

Elephant man - classy

No entanto, a sina dele é a de ser a atração por onde quer que passe, involuntariamente. Conquanto não se esforce para tal – e mesmo que seja melhor visto graças ao apoio de seus amigos, entre eles a Princesa de Gales e Madge Kendal, uma famosa atriz da época – ele é tido como um raro objeto de exposição. Por exemplo, numa visita ao teatro, quem recebe os aplausos é ele, simplesmente por estar lá.

Elephant man - Final spectacle

Ainda sobre a importância da expressão para o desenvolvimento humano, há certa insistência em mostrar o hobby de Merrick (que era também do verdadeiro Merrick, porém dramatizado na obra). Trata-se da construção de uma igreja em papelão. Em determinada cena ele explica que só consegue ver o topo de uma das torres dessa igreja, daí a necessidade de usar a imaginação para recriar a porção fora do alcance de sua vista, o que o leitor poderá tirar de mensagem: o que vemos das pessoas é tão-só uma fração mínima do que deveras são; o Eu inteiro deve ser construído a partir de algo mais, logo, desenvolver uma boa comunicação é um excelente caminho para nos revelarmos além do que aparentamos ser. E não precisamos ter qualquer deformidade para experimentarmos essa necessidade de expressarmo-nos melhor.

Elephant man - building

Por falar em insistência, deparamo-nos com muitos pillow shots dos interiores de fábricas inglesas. Esses planos do maquinário oculto servem para nos recordar de que por trás do aspecto externo da cidade, há toda uma complexa estrutura que a mantém – uma analogia ao drama do protagonista.

Um último detalhe para o qual o Classicista deseja chamar a atenção é o forte caráter teatral de O Homem Elefante. Mesmo que não tenha sido baseado na peça homônima, não há como escaparmos da teatralidade muito específica a que o filme nos remete. Seja pela fascinante atuação de Hopkins, um ator shakespeariano (lembremo-nos da presença de Kendal e das citações a Romeu e Julieta); seja pela forma como os diálogos e monólogos foram filmados, com aquele típico olhar – “For sorrow’s eye, glazed with blinding tears”, A Tragédia do Rei Ricardo II –; seja pelo própria temática, The Elephant Man é tão teatro cinematográfico quanto o Hamlet de Laurence Olivier (1948).

Elephant man - shakesperian

Por fim, há os aplausos e fecham-se as cortinas. Dito isso, a quem não assistiu a esta maravilha, fica a recomendação de permitir-se assustar, encantar e emocionar-se. A quem já o viu, esteja à vontade para acrescentar qualquer consideração ou dizer o que achou do filme nos comentários.

Ficha técnica:
Título: O Homem Elefante / The Elephant Man;
Direção: David Lynch;
Elenco: Anthony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft, John Gielgud, Freddie Jones…;
Roteiro: Christopher De Vore, Eric Bergren, David Lynch, Frederick Treves (história original);
Cinematografia: Freddie Francis;
Edição: Anne V. Coates;
Música: John Morris;
Produção: Stuart Cornfeld, Jonathan Sanger, Mel Brooks;
Ano: 1980;
País: Estados Unidos da América;
Gênero: Drama.

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