O Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton

Em The Night of the Hunter, Robert Mitchum, eterno bad boy de Hollywood, empresta seu corpanzil e sua voz abaritonada para dar vida a um dos vilões mais patifes (e por que não dizer fascinantes?) da história do cinema.

Pontos principais:

  • Direção inspirada e fantasiosa, fotografia inesquecível;
  • O papel do reverendo cai como uma luva para Mitchum e Lillian Gish dá-nos um dos exemplos mais inesperados de bravura;
  • LOVE – HATE, as mãos são o veículo da mensagem;
  • Not that you mind the killings! There’s plenty of killings in your book, Lord” – roteiro destilado em puro veneno;
  • Chiiillldren”.

Se tivesse de escolher o melhor diretor de um filme só, com certeza seria Charles Laughton, ator veterano mais conhecido pelos seus papéis em Testemunha de Acusação (Witness for Prosecution), Spartacus e alguns dos temporãos de Hitchcock. Infelizmente, O Mensageiro do Diabo na época de seu lançamento foi um fracasso de bilheteria.

Isso abalou Laughton de tal maneira que o fez se aposentar da direção após essa curtíssima carreira. Resta-nos lamentar o sucedido e imaginar que outras maravilhas ele teria criado se persistisse, pois esta única entrada foi suficiente para colocar seu nome entre os dos melhores diretores do cinema mundial.

Laughton deu uma aula de direção em cada quadro, auxiliado imensamente pela fotografia de Stanley Cortez, que havia trabalhado com Orson Welles no também estonteante Soberba (The Magnificent Ambersons). Aqui eles se reuniram para criar um vigoroso conto de fadas, repleto de infantes em perigo, vilões incansáveis, velhinhas bondosas e corajosas, tudo permeado de composições quase oníricas, mas sem serem piegas.

É importante começar a análise do filme pelo primeiro quadro, porque com frequência o realizador indica aí o teor da obra e como devemos percebê-la. O Mensageiro abre com a figura de uma senhora a contar uma lenda para suas crianças; não obstante, elas são representadas como cabeças flutuantes no espaço. Sabemos logo cedo que não encontraremos muito realismo no decorrer da sessão.

Cabeças não costumam flutuar no espaço, certo?
Cabeças não costumam flutuar no espaço, certo?

É certo que não vemos realismo, pois a fonte da qual Laughton e Cortez beberam foi outra: o expressionismo alemão. Desde os cenários (distorcidos, nevoentos), a passar pela iluminação (enfática e nada natural), até às atuações (bastante caricatas), tudo é expressionista.

The Hunter e Das Cabinet des Dr. Caligari.
The Hunter e Das Cabinet des Dr. Caligari.

Em seguida somos apresentados aos personagens e à teia de relações que há entre eles; somos igualmente informados de suas motivações e temos alguma ideia do que pode resultar disso. Às vezes essas introduções se dão por aquele velho ditado “Uma imagem vale mais do que mil palavras”. Em uma dessas cenas oníricas, dois pequenos estão em seu quarto de dormir, de repente um deles olha para a parede e vê ali projetada a sombra de um estranho. É a presença do reverendo – e a mácula decorrente dela – a ser sentida antes mesmo de ele entrar na vida dessa família.

A sombra na parede e depois no chão, bem longe.
A sombra na parede e depois no chão, bem longe.

É claro que, como em todo conto fantástico, temos a situação de personagens indefesos em risco. Não tarda para que essas crianças se vejam em apuros nas mãos do preacher, pois ele precisa delas para descobrir um determinado segredo. Laughton demonstra essa fragilidade infantil com um simples posicionamento de câmera: vistas de cima elas parecem ainda menores.

 Criança - The night of the hunter

As crianças conseguem escapar por conta própria depois que a mãe delas (interpretada com fervor por Shelley Winters) some da história. Não revelarei os detalhes, mas o caso envolve uma das tomadas mais horripilantemente belas que já vi. A perseguição do reverendo envolve uma transposição de paisagens que é de fazer os olhos brilharem.

A arte perdida de mostrar duas coisas ao mesmo tempo.
A arte perdida de mostrar duas coisas ao mesmo tempo.

Por fim todos se encontram com propósitos distintos na casa da Senhora Cooper (Gish), que apesar da idade não tem nada de acuada. Com sua espingarda a ponto de bala ela arregaça as mangas para defender os pequenos. Nesta altura dos acontecimentos sucede uma daqueles truques cinematográficos dignos de aplauso: vemos a senhora de guarda com o vulto do reverendo atrás da cortina, uma menina chega com uma vela que bloqueia a visão através da janela, então a senhora apaga a luz e depara-se com o sumiço do vilão, tudo sem cortes.

Com atenção dá para ver Mitchum agachar-se.
Com atenção dá para ver Mitchum agachar-se.

O fim fica como surpresa, mas uma coisa é certa:

Ladykillers? Não neste bairro!
Ladykillers? Não neste bairro!

Ficha técnica:
Titulo: O Mensageiro do Diabo / The Night of the Hunter;
Direção: Charles Laughton;
Elenco: Robert Mitchum, Shelley Winters, Lillian Gish…;
Roteiro: James Agee, Davis Grubb;
Cinematografia: Stanley Cortez;
Edição: Robert Golden;
Produção: Paul Gregory Productions;
Ano: 1955;
País: Estados Unidos;
Gênero: Noir, expressionista, suspense, drama.

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