O Planeta dos Macacos, de Franklin J. Schaffner

Aviso: contém um bocadinho de revelação para quem ainda não viu o filme. Não gosto de entregar a emoção assim, mas há neste caso um pormenor que gostaria de discutir.

Pontos principais:

  1. É um dos principais filmes de ficção científica, graças principalmente à caracterização dos personagens, à abordagem crítica com relação à humanidade e ao tão falado final;
  2. Não é uma obra de arte excelente, tem obviamente suas falhas; ainda assim, trata-se de um bom filme e um ótimo momento de lazer;
  3. Do mesmo modo, Heston pode não ser o melhor ator de Hollywood, todavia certamente tem uma presença marcante em tela, quesito necessário ao papel;
  4. É a melhor realização de toda a franquia;
  5. “You Maniacs! You blew it up!”

Se continuar assim, O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes) jamais sairá de moda. Depois de uma série de continuações de mérito duvidoso na década de 70, chegamos ao século XXI para achar adaptações terríveis ou aceitáveis, mas todas elas têm uma característica comum: não superam a versão original, de 1968. Então, o que o filme dirigido por Franklin J. Schaffner e estrelado por Charlton Heston mostra de tão especial?

Em resumo, é um entretenimento bastante agradável. Repleto de suspense e cenas de ação, cativa-nos também pelo inusitado da situação, pelas paisagens e caracterização dos personagens. Além disso, esconde uma boa porção de humor e filosofia por trás da aventura. E há o final, claro; antes, no entanto, falemos do começo.

Numa espaçonave, vemos o astronauta Taylor (Heston) a fumar tranquilamente seu cigarro enquanto grava sua fala. Fumar? No espaço? É, percebemos que a projeção não será muito realista… Entendemos em seguida que ele e seus três companheiros estão há seis meses a bordo, o que equivaleria a 700 anos no tempo terrestre. Ou seja, eles desembarcariam por volta do ano 2673.

Planet of the Apes time travel 1

Todos vão tirar aquela soneca gostosa, fato natural dos filmes de ficção, de 2001: Uma odisseia no espaço (2001: A Space Odyssey, de Stanley Kubrick, no mesmo 1968) a Alien: O Oitavo Passageiro (Alien, de Ridley Scott, 1979) e Avatar (de James Camero, 2009), até que despertam, não mais no ano de 2673, mas em 3978.

Planet of the Apes time travel 2

Isso é um mero detalhe, porque logo aterrissam. Aqui faço a grande ressalva do filme, pois afeta diretamente o fim, portanto, o twist. Não sei quanto a ti, durante a narrativa sempre tive claro que o objetivo era retornar à Terra e que o único fator alterado foi o tempo decorrido. Para mim o roteiro induz o espectador ao erro, para efetivar o remate, uma vez que sequer os astronautas – caras inteligentes, cientistas… – cogitam que aquela pode ser a Terra.

Planet of the Apes 4

O que nos leva a pensar igualmente nas condições de credibilidade da história. Consideremos o seguinte: o filme, como obra, existe independentemente do público, enquanto a história deste mesmo filme só acontece na mente da audiência. Para entender melhor, notemos as locações das filmagens: rodadas em um ambiente terrestre, no norte do Arizona, a abordagem artística do terreno confere-lhe um ar diferente, extraplanetário. Como em todos os títulos que se passam em territórios alienígenas, nós criamos em nossa imaginação um mundo novo a partir de um outro já conhecido, exceto em casos de computação gráfica, tal em Avatar.

A seguir, os astronautas descobrem-se em um mundo onde criaturas humanoides são mudas e macacos evoluídos não apenas falam, mas também são a espécie dominante. Estes tratam os humanoides do mesmo modo como os símios seriam tratados, lá pelos anos 60 e 70, caso invadissem as cidades. Nisso, parabéns à equipe de 80 maquiadores pelo trabalho excelente e, de certo modo, creível.

Planet of the Apes 2

A partir daí a trama se desenrola de fato; Taylor fica sozinho, os macacos bons e os macacos maus aparecem, e a ação intensifica-se. No meio disso deixam-se antever as pretensões intelectuais do filme, ora através de um humor meio bobo, talvez necessário para amenizar o conjunto da obra, ora através de um discurso crítico e direto. Essas falas são, para mim, as mais interessantes, porque Taylor já é um cara bastante desconectado da humanidade e os macacos oferecem-nos uma visão mordaz de nós. Um dos pontos fortes de O Planeta dos Macacos é oferecer uma visão crítica da humanidade por meio dos olhos de outrem.

O resto encarregarei à memória ou à curiosidade do leitor. Quem ainda não viu, que veja, seja para conhecer o filme por si ou para comparar com as 8 continuações e adaptações, tanto para o cinema quanto para a televisão. Fiquemos agora com algumas curiosidades que encontrei:

Os astronautas são da ANSA, ao invés da NASA, não sei por que razão.

Planet of the Apes 3

Lá pelo fim, Taylor se escanhoa com uma espécie de navalha, até aí tudo bem, porém seu rosto está coberto por espuma… Teriam os macacos um sabonete de glicerina à mão, uma vez que é improvável que tivessem disponível loção de barbear?

Planet of the Apes shaving

Há também uma piada visual muito marota: um dos astronautas descobre algo no chão e chama seus companheiros para conferirem. Detalhe: estão nus, posto que nadassem. Eles se aproximam, olham para baixo – para uma pegada – mas o ângulo da câmera sugere que olham para os membros uns dos outros. Não obstante, dois deles se abaixam e só vemos o topo de suas cabeças à altura da cintura de Taylor. Só então descobrimos a verdadeira fonte de curiosidade: a tal pegada no chão. Franklin, seu danadinho!

Planet of the Apes (dick joke)

Ficha técnica:
Título: O Planeta dos Macacos / Planet of the Apes;
Direção: Franklin J. Schaffner;
Elenco: Charlton Heston, Roddy McDowall, Kim Hunter, Maurice Evans, Linda Harrison, Robert Gunner, Lou Wagner…;
Roteiro: Michael Wilson, Rod Serling, Pierre Boulle (história original);
Cinematografia: Leon Shamroy;
Edição: Hugh S. Fowler;
Música: Jerry Goldsmith;
Produção: Mort Abrahams, Arthur P. Jacobs;
Ano: 1968;
País: Estados Unidos da América;
Gênero: Ficção científica, Aventura, Ação.

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