O Sertão no Cinema Novo

O Cinema Novo no Brasil foi um movimento principalmente de ideias. Foi também, em muitos casos, uma tentativa de se reduzir ao fundamental a experiência cinematográfica tanto na confecção dos filmes quanto na representação das temáticas escolhidas. O objetivo era cortar gastos e, para isso, eliminar todos os componentes desnecessários.

Não se veem sets faraônicos nem elencos hollywoodianos; o Cinema Novo foi um cinema de bravura, como foram o Neo-realismo italiano e a Nouvelle Vague, suas influências diretas. Da Itália trouxe o engajamento social e da França importou o questionamento filosófico e as técnicas de filmagem independente, tudo adaptado ao âmbito nacional em uma espécie de antropofagia cultural, ao melhor estilo de Oswald de Andrade.

Assim, alguns diretores encontraram no Sertão nordestino o cenário apropriado para desenvolverem suas histórias e suas manifestações políticas, isto é, não no Sertão geográfico, mas no ideológico.  A caatinga serviu a dois propósitos: minorar os custos de produção, uma vez que os filmes não precisavam mais de um estúdio para ser feitos, e transformar-se em uma alegoria para o Brasil como um todo.

Tanto que uma das maiores críticas contra esse movimento é a forma demasiado trágica com que mostrou o país, no entanto é de se entender que essa tragédia foi uma necessidade imposta pelo caráter descobridor do Cinema Novo. Descobrir aqui no sentido de tornar nu, despir de todas as distrações, resumir ao âmago. E até eviscerar, por que não?

E nesse aspecto o Sertão funciona muito bem, pois reduz a existência humana ao seu impulso mais íntimo: simplesmente existir. No papel de espectadores nós não entendemos como as pessoas conseguem sobreviver naquela terra e sob aquelas condições, sem água, sem conforto, quase sem comida e sem o mínimo direto à felicidade.

Então nos perguntamos: “De que adianta viverem assim? Por que eles não lutam por uma vida melhor?”, e é essa a grande pergunta, o grande desafio que o filme nos impõe. “Por que não lutamos todos por uma vida melhor?” Como disse acima, o Cinema Novo foi um cinema de ideias, portanto quem não está disposto a pensar de fato não simpatizará com sua proposta.

Agora, o problema é que, como em todos os demais movimentos de transformação no país, não houve um consenso quanto a qual rumo tomar, ou qual solução seria a mais adequada. Cada diretor sugeriu as próprias respostas, do mesmo modo que cada partido tem as próprias bandeiras.

Nelson Pereira dos Santos se aproveitou da história de Vidas Secas (Barren Lives), de Graciliano Ramos, para criticar a passividade de Fabiano diante das injustiças cometidas pelas autoridades. Em uma cena original do filme, Fabiano está defronte a um caminho bifurcado: em um está a possibilidade de se juntar ao Cangaço e rebelar-se contra as injustiças, no outro está sua família. Ele se decide pela família, ou seja, pela mera sobrevivência ao invés de partir para a luta.

Já Glauber Rocha tinha uma visão diferente. Em Deus e o Diabo na Terra do Sol (Black God, White Devil), outro marco do Cinema Novo, ele também se demonstrou contrário aos desmandos do governo, porém não via mais a solução nos cangaceiros, nesse grupo isolado de guerrilheiros; via-a nos cidadãos comuns, na união de vaqueiros, lavradores, donas de casa, dessas pessoas que sofriam (e ainda sofrem) pela própria inanição diante da desgraça. Com isso Glauber retirou a responsabilidade pela transformação social das costas da religião e das guerrilhas para depositá-la sobre o povo.

Apesar das divergências, mesmo as opiniões mais distintas se encontram em um ponto específico: na urgência de agir. Seja pela luta armada, seja pela palavra (o que creio ser sempre a melhor solução, posto que infenso à violência), os diretores do Cinema Novo pretendiam mostrar a essência do posicionamento político brasileiro, queriam expor as entranhas de nossa omissão para que à vista delas nos espantássemos e enfim agíssemos.

O espanto está aí, a ação é que tem demorado a vir. Talvez os brasileiros não conheçamos o cinema nacional…

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