O Tigre e o Dragão, de Ang Lee

Os filmes de ação têm o costume de desafiar as leis da Física, mas até O Tigre e o Dragão (Crouching tiger, hidden dragon / Wo hu cang long, 2000) essas leis não haviam sido desafiadas em nome de tanto lirismo. Além disso, o filme de Ang Lee é sobretudo um drama profundo e discreto sobre a natureza humana. Por isso se destaca entre a maioria das obras de ação. Nele as lutas são a forma que os personagens encontraram de expressar seus sentimentos então contidos.

O filme passa-se na China, no final do século XVIII, ainda povoada por ladrões ninjas e guerreiros com códigos de honra bastante rígidos. Logo vemos uma criada avisar à sua patroa, Yu Shu Lien (Michelle Yeoh), que Li Mu Bai (Yun-Fat Chow) acaba de chegar para uma visita.

Yu não diz uma palavra, no entanto o modo como ela reage à chegada dessa figura masculina revela muito ao espectador. É algo discreto, apenas uma ligeira contração dos músculos da face e um olhar para o lado. E dá o tom ao resto da projeção: sentimentos pontuados de um tortuoso e nobre silêncio.

Crouching tiger, hidden dragon (expressions)

Li é irmão do falecido esposo de Yu, que morrera para defendê-lo. Ele a sem modo também reage à pessoa de Yu, com seu jeito quase monástico de encarar as emoções. Revela que desistira de seu treinamento isolado porque algo ainda o prendia ao mundo. Seria o desejo de vingança ou o amor inconfessável pela viúva de seu irmão?

De toda forma, não espere o espectador por grandes declarações ou quaisquer arrebatamentos. O título em inglês capta a essência do original, que grosseiramente traduz-se como “tigre agachado, dragão oculto”. Este filme é sobre fúria, mas uma fúria na maior parte do tempo calada e contida.

Li pede a Yu que leve sua espada para Beijing, a modo de presentear determinado figurão. Isto desenrola a narrativa, quando na Capital Yu Shu Lien conhece Jen Yu, uma misteriosa garota interpretada pela graciosa Ziyi Zhang. Em seguida a espada é roubada e a lei da gravidade dá lugar às cenas de ação, enquanto as lutas interiores dos personagens continuam tão intensas quanto as exteriores.

Crouching tiger, hidden dragon (Jen Yu)

Jen ganha importância ao longo da narrativa, com direito a um longo flashback exclusivo – um tanto anticlimático, na minha opinião. Ela tem como empregada ninguém menos do que Jade Fox (Pei-pei Cheng), mulher que assassinara o antigo mestre de Li quando este não lhe permitira aprender a técnica de Wudang, técnica esta que faz seus discípulos combaterem como penas ao vento. Jade e Jen compartilham o interesse por dominar o Wudang.

Depois desse flashback que divide o longa, a ambientação do filme sai da cidade e ganha o interior e os bambuzais onde ocorre a cena icônica de O Tigre e o dragão, na qual Li e Jen parecem flutuar sobre os ramos de bambu. É interessante notar que apesar de ser uma luta, a cena é de uma paz e uma poesia incríveis.

Crouching tiger, hidden dragon (poetics)

É basicamente isso que poderia falar sobre a história sem estragar as surpresas reservadas ao espectador. Quanto à parte técnica do filme muitas menções devem ser feitas.

Quanto ao tema, Crouching tiger… surpreende por mostrar toda a sua força através das personagens femininas. Li é quase um coadjuvante nesse contexto, por ser mais distante e ter mais dificuldade em exprimir seus desejos interiores.

Yu é uma grande guerreira que não pode manifestar seu amor em nome da honra. Jen é jovem, ambiciosa e temperamental, com um passado que não pode revelar; já Jade é uma mulher frustrada pela vida, cuja única esperança de sucesso está em Jen, porém as duas estão numa relação complicada. São os dramas dessas três mulheres que conferem profundidade emocional ao filme, fora serem três atuações fantásticas de suas respectivas atrizes.

Outro ponto alto fica por conta da equipe técnica principal que ajudou a criar este poema audiovisual chamado O Tigre e o Dragão. Das cenas de ação criadas por Yuen Wo-Ping, que vinha de outro longa de ação com lutas memoráveis, Matrix (1999), e depois viria a trabalhar com Quentin Tarantino nos filmes de Kill Bill (2003/2004). Passamos por Tan Dun, compositor da trilha original que dá à música um caráter dramático porém discreto, tal qual seu par visual. Tan Dun ganhou o Oscar em 2001 pela trilha.

Passamos também por Peter Pau, responsável pela cinematografia, igualmente ganhador do Oscar e de outras premiações por seu trabalho aqui. E chegamos a Ang Lee, que se não ganhou o Oscar, faturou o Globo de Ouro, entre outros prêmios, além de que com um módico orçamento de 17 milhões de dólares – módico para produções desse porte – ele criou uma das obras-primas do Cinema recente.

Entende-se em parte o relativo baixo custo da produção quando se presta atenção nos cenários. Os últimos anos do imperador Qianlong não foram de grande prosperidade dentro da História chinesa; de qualquer maneira, os cenários dão apenas a ideia de lugar, sem muito preenchimento. E isso não deixa a desejar, porque esse design de set, conquanto simples, é inteligente.

E no fim o que fica mesmo gravado na memória são as imagens onde a natureza é o cenário principal: a aridez avermelhada do deserto, dois vultos brancos em estranho baile sobre um mar de folhas verdes…

Ficha técnica:
Título: O Tigre e o Dragão / Crouching tiger, hidden dragon / Wo hu cang long;
Direção: Ang Lee;
Elenco: Michelle Yeoh, Yun-Fat Chow, Ziyi Zhang, Pei-pei Cheng, Chen Chang…;
Roteiro: Hui-Ling Wang, James Schamus, Kuo Jung Tsai, Du Lu Wang;
Cinematografia: Peter Pau;
Edição: Tim Squyres;
Música: Tan Dun;
Produção: Hsu Li-Kong, William Kong, Ang Lee;
Ano: 2000;
País: China, Taiwan, Hong Kong, Estados Unidos;
Gênero: Ação, drama.

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