Orwell versus Huxley, um duelo de distopias

Em qual distopia nós vivemos?

Lê também: 1984, de George Orwell. E: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Admirável Mundo Novo está mais próximo de nossa realidade do que 1984, embora ficcionalmente se posicione em um tempo muito mais longínquo. Então, talvez, Orwell tenha sido mais eficaz em seu aviso do que seu ex-professor, Huxley. Ou ambos viram facetas diferentes da humanidade, que com o passar das décadas umas predominaram às outras e por isso vivemos em uma sociedade tão Admirável… Melhor dito: nós, brasileiros livres das classes média e alta, vivemos em tal sociedade, enquanto em tantos outros lugares ainda se vive sob certo terror orwelliano, inclusive em países desenvolvidos como os Estados Unidos.

Não se trata de erros e acertos. Nenhum dos livros é um caderno de palpites ou uma coluna de fofocas; cada um funciona dentro do próprio universo e primeiro deve ser analisado nesse espaço, depois é que o transportamos para a vida real e vemos como ele se relaciona com ela. Somente após, não antes.

Agora, uma vez que já estudamos as obras por si, passemos a correlacioná-las e a relacioná-las com o mundo. Tenhamos isto em mente: as distopias não servem para adivinhar aquilo que podemos nos tornar, mas para nos alertar daquilo que já nos tornamos. O verdadeiro terror vem de “nós somos isso”, e não de “nós podemos ser isso”.

Em termos de literatura, 1984 é mais livro do que Admirável…, enquanto este explora mais recursos do que aquele. Digamos que um se destaca mais pelo conteúdo e o outro pela forma, conquanto ambos contem histórias fascinantes. É fato que a escrita de Orwell é mais densa, pungente e captadora; também o é que seu protagonista, Winston Smith, importa-nos mais do que Bernard Marx e John, os personagens centrais da obra de Huxley. Contudo, a narrativa deste salta mais rica aos nossos olhos pela variedade de técnicas tais ironia, paródia, deslocação temporal etc. Huxley seduz para assustar, Orwell assusta pelo susto.

Outro fator que as separa é o detalhamento de algumas situações e a abrangência de aspectos não tão literários dentro das obras. 1984 descreve melhor sua política e a forma pela qual seus políticos se mantêm no poder; Admirável… pouco fala sobre isso, mas trabalha melhor sua sociedade e lida de um modo mais desenvolvido com seus desejos. Além disso, 1984 é uma novela estritamente literária, tanto mais porque a política é por si um gênero bastante arraigado à literatura ficcional – a Odisseia, por exemplo, é um texto político. Admirável… abrange um universo maior, vai da Biologia à Psicologia e a Shakespeare com muita facilidade. Essa harmoniosa ligação entre ficção e ciência é deveras instigante de ler, pois é um subgênero relativamente novo e que poucos souberam bem utilizar até agora.

Ainda quanto à sociedade, Huxley parece mais atento ao seu real funcionamento. Em 1984 as pessoas são regidas pelo medo e pela dor, em Admirável… elas são dominadas pelo prazer e pela constante ocupação. Embora a primeira opção soe mais ameaçadora, a segunda é mais eficaz. Por isso as religiões foram durante muito tempo instituições políticas tão estáveis, porque prometiam ambas as coisas – afligiam e curavam através do êxtase religioso. Não à toa existem ditos populares como “cabeça vazia, oficina do Diabo”, algo muito próximo das filosofias novomundiana e do Grande Irmão.

Basta que vejamos o Brasil. Como ilustração, não bastasse ao Rio de Janeiro a criminalidade e as cheias, agora tem de lidar com bueiros explosivos. Eis um dado expressivo: em 2007, nesse Estado, foram registrados 6.133 casos de homicídio doloso. Para termos noção, nos três primeiros meses de bombardeio no Afeganistão pelos Estados Unidos, em 2001, morreram cerca de 3.000 civis; para todo o ano de 2007 há a estimativa de 1.297 casualidades civis. Um cenário assombroso, mas comparativamente mais brando do que o dessa guerra não declarada.

O que pareceria um roteiro para 1984, no entanto é justificado pela busca de prazer e pela constante ocupação descritas por Huxley. Enquanto a população não trabalha 157 dias de cada ano somente para pagar os impostos, ela quer mais é se distrair, e com direito. Quer o futebol, a televisão, a fé, as drogas (lícitas ou não), as praias, o Piscinão, as serras. E, como diria Jorge Ben Jor, em fevereiro tem Carnaval. Só se engana quem pensa que isso se limita ao Rio – o Brasil todo é assim. O futebol, a televisão e o bar são instituições federais. Até a geração mais nova tem lutado para legalizar seu soma de cada dia.

Os brasileiros buscamos freneticamente a felicidade, mas não somos felizes. Essa propaganda é um atrativo para turistas e um autoengodo, nada mais. Se fossemos naturalmente felizes, a eliminação da seleção ou de nosso time não magoaria tanto. Se fossemos, não necessitaríamos de tantos feriados. A alegria do brasileiro é frenesi, é o suspiro do cansado.

Ainda assim, as duas obras ignoram características fundamentais das relações humanas. As duas sociedades distópicas conseguiram suprimir o individualismo de maneira semelhante: abolição da família, padronização da cultura, dos gostos, dos produtos e até das vestes; além da “educação” social e mútuo policiamento. Algo não muito surpreendente, pois o cotidiano real está repleto de preconceitos contra os indivíduos únicos, considerados excêntricos (fora do centro, ex-centro) e erráticos. Pessoas que gostam de pensar não são bem vistas pelos demais.

Entretanto o individualismo encontra seu espaço na sociedade. Como prova, encontrou também nas figuras de Winston Smith e Bernard Marx. Portanto é difícil para nós acreditarmos que eles são os únicos seres diferentes de toda uma espécie – a evolução não funciona desse jeito, cada ser se faz diante do contexto no qual está inserido.

Se estendermos esse princípio para as nações, o mesmo é válido. Com a queda da União Soviética o Leste europeu passou a dividir-se em porções cada vez mais específicas. Diversos povos africanos continuam seus processos de separação dos inimigos históricos, com os quais foram forçados a conviver dentro de um mesmo território durante a expansão colonizadora europeia. Há pouco surgiu o 204º Estado soberano, o Sudão do Sul, à frente de uma longa lista de territórios em disputa. A União Europeia, antes tida como inabalável, dá mostras de enfraquecimento. Até no Brasil, que durante muito tempo pouco alterou suas fronteiras internas, existem propostas para a criação de novos estados.

Se os grandes blocos não funcionam na prática e o individualismo é uma verdade incontornável, a ambição humana é outro aspecto que passa batido pelas duas distopias. Nenhum dos personagens demonstra interesse em ascender socialmente (em Admirável… o fato é explicado pelo condicionamento psicológico dos cidadãos desde a gestação), não valorizam o dinheiro ou sequer melhores condições de vida. Se voltarmos ao caso do Rio de Janeiro, é certo que os fluminenses não lutam por uma vida melhor, mas não podemos acusá-los de falta de ambição, bem como não podemos acusar disso os brasileiros em geral – o “jeitinho brasileiro” prova-o.

A questão é que parte dos ambiciosos de nossa nação efetivamente consegue ascender na escala social nos limites do país, enquanto outra parte decide procurar sua chance no estrangeiro. Estima-se que cerca de três milhões de brasileiros vivam no exterior, um número bastante alto para uma população “feliz”, “próspera” e “em paz” igual à nossa. Logo, se o mundo estivesse em idênticas condições, é de esperarmos que os cidadãos não migrassem e aspirassem às melhoras, o que implicaria em diversos focos de revoltas correlatas, como na Primavera Árabe.

E a maior diferença – quando comparadas as ficções com a realidade – fica por conta do tempo em que habitam essas sociedades. As sociedades de 1984 e Admirável… não parecem estar localizadas no futuro, mas em um remoto passado. Apesar do volume de habitantes, as massas distópicas não são mais complexas do que de uma tribo indígena. Uma vez tido esse pensamento, é impossível não considerar os aglomerados de Oceânia ou do Novo Mundo como um bando de índios, com semelhantes distribuição social e normas de conduta.

Nos dois livros temos sociedades práticas, cujos indivíduos desaparecem no todo. Tais indivíduos, se assim ainda se permite chamá-los, são educados e limitados por um conjunto de tradições orais, baseado no senso comum e do qual não se pode traçar a origem exata. Eles não têm acesso à informação e tudo quanto veem está submetido aos olhos dos outros. E talvez a maior semelhança esteja no papel dos líderes O’Brien e Mustapha Mond, os pajés alegóricos: a liderança encarrega-os – e somente a eles – a tarefa de pensar pela tribo-população; somente eles têm acesso ao saber antigo, pois conhecimento é poder, ou nas palavras de Orwell: “Quem controla o passado, controla o futuro”.

Para finalizar, retomemos o caso dos Estados Unidos. É um país paradigmático quando se trata de demonstrar que 1984 e Admirável… podem coexistir em um só contexto. Os EUA são notórios por viverem sob o medo da guerra, qual a Oceânia, ora com a União Soviética, ora com os extremistas árabes, sempre em marcha com seu Ministério da Paz e seu Ministério do Amor.

Mas o medo não impede de, como no Novo Mundo, ser uma sociedade material, voltada para a satisfação efêmera e entorpecente, seja pela compra do novo gadget, pela estreia do novo blockbuster (com toda a torpeza do cinema sensível em plena vida real), pelo lançamento da nova moda, da nova rede social, do novo isso e do novo aquilo… Não que seja uma exclusividade estadunidense, bem entendido. O Brasil trilha um caminho muito parecido, tanto mais com o parcial crescimento econômico.

Ou, talvez, a Grã-Bretanha seja o exemplo mais adequado de coexistência. Afinal, ambos os escritores encontraram possibilidades distintas na mesma Londres. Aliás, a distopia é britânica por natureza. H. G. Wells, o primeiro autor distópico de sucesso, era britânico. E lá estendeu-se também para fora da literatura, chegou ao cinema e até à música.

O grande trunfo desses livros, conforme afirmado acima, é revelar aquilo que já somos, por isso empalidecemos diante do próprio reflexo. Não precisamos de alguém que nos empurre o soma goela abaixo, nós o pedimos; não precisamos quem manipulem a verdade, fazemos isso o tempo todo sem nos darmos conta (com frequência desmoralizamos quaisquer manifestações sociais por mudanças, ex.: greves, passeatas…). Há certamente uma saída, que é a mensagem comum das duas obras: jamais devemos abrir mão de nossa humanidade.

Encerremos com esse ótimo quadrinho de Stuart McMillen sobre o tema (clica na imagem para aumentá-la). Mais quadrinhos do artista encontram-se aqui. A tradução do texto está a seguir.

http://stuartmcmillen.com
http://stuartmcmillen.com

“O que Orwell temia era aqueles que baniriam os livros. O que Huxley temia era não haveria razão para banir um livro, porque não haveria quem o desejasse ler. Orwell temia aqueles que nos privariam da informação. Huxley temia aqueles que nos forneceriam tanta informação que nós seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade seria escondida de nós. Huxley temia que a verdade estaria imersa em uma mar de irrelevância. Orwell temia que nos tornaríamos uma cultura aprisionada. Huxley temia que nos tornaríamos uma cultura trivial, preocupada com algum equivalente do cinema sensível, das orgias e dos jogos triviais. […] Em 1984, Huxley acrescentou, as pessoas são controladas ao infligir dor. Em Admirável Mundo Novo, elas são controladas ao infligir prazer. Em resumo, Orwell temia que o que odiamos nos destruísse. Huxley temia que o que amamos nos destruísse”. – Neil Postman, no prefácio do livro Amusing Ourselves to Death (uma crítica excelente, infelizmente sem tradução para o português).

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