Os Espiões, de Fritz Lang

Muito antes de 007, o cinema já apresentava um grande espião com codinome numérico. Fritz Lang traz em seu longa de ação de 1928, Os Espiões (Spies / Spione), o agente secreto Nº 326, a serviço da polícia alemã. Muita ação, romances furtivos, intrigas internacionais, agentes duplos, vilões caricatos, femmes fatales… 326 poderia muito bem ser visto como o precursor de James Bond, embora o gênero de espionagem não seja exatamente exclusivo.

Baseada no romance de Thea von Harbou (esposa de Lang, que também assina o roteiro), a história gira em torno do desaparecimento de certos documentos e a iminente assinatura de um tratado internacional. Alemães, russos, franceses e japoneses têm interesses distintos nessa confusão. A montagem inicial é ágil e já nos coloca a par dos fatos, uma antecipação de toda a ação que está por vir.

O filme, apesar de sua idade, chega ainda com fôlego aos oitenta e tantos anos de sua trajetória. O ritmo e a edição de Os Espiões garantem a adrenalina que muitos filmes mais recentes, por inaptidão de seus realizadores, não conseguem transmitir. A exibição passa sem aborrecimentos, com sobra para alguns momentos mais sentimentais na história.

Spione movie

Como convém ao gênero – e ao veículo, o cinema mudo – a narrativa funciona através de estereótipos, que não é coisa má quando essa técnica é utilizada como meio, não como fim narrativo. Primeiro vemos o herói, 326 (Willy Fritsch), que vive sob disfarce e revela-se inteligente, ativo e ardiloso – o típico espião.

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Em seguida encontramos o vilão Haghi (Rudolf Klein-Rogge), que de início não faz qualquer vileza em nossa frente, mas a construção de seu ambiente e de seu semblante o entregam (aquele cavanhaque não engana).

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Ele inclusive vive num complexo secreto, talvez não tão expressivo quanto Lang gostaria que fosse, devido às restrições orçamentárias depois dos sets nababescos de Metrópolis (Metropolis, 1927).

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Depois desfilam todos aqueles personagens aos quais já estamos acostumados: Sonya (Gerda Maurus), a agente de Haghi incumbida de seduzir 326; Masimoto (Lupu Pick), da inteligência japonesa, e outros vilões e aliados secundários.

Quando digo que o filme faz uso de lugares-comuns não julgo com isso que o filme seja ruim; não, o filme é excelente. Esses elementos são usados apenas para avançar a história, como se Lang indicasse: “olhem, estas são as regras do jogo, agora joguem e divirtam-se”. E a diversão é garantida.

Para além do lugar-comum, o diretor presta grande atenção aos detalhes, tanto na configuração do roteiro quanto da construção das cenas. Por exemplo, os planos de Masimoto para descobrir um agente duplo em seu grupo e toda a sua relação com uma espiã de Haghi são de muita inteligência por um lado, e de uma profunda comoção por outro.

O envolvimento do casal protagonista é crível em todo o seu vaivém de luta e paixão, simbolizado maravilhosamente na sequência do restaurante onde uma luta de boxe logo se transforma em um animado baile.

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Para um filme de 1928, há aventura de sobra. Espiões de elite e sua parafernália, jogos mentais, seduções, lutas, mortes, acidentes de trem, perseguições de carro… Os Espiões tem ação do começo ao fim. E por falar no fim, este também não desapontará, não somente pela inteligência (um twist divertidíssimo), como também pela poesia com que é construído. Enfim, mais uma obra magnífica de Fritz Lang.

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Ficha técnica:
Título: Os Espiões / The Spies / Spione;
Direção: Fritz Lang;
Elenco: Rudolf Klein-Rogge, Gerda Maurus, Louis Ralph, Willy Fritsch, Lupu Pick, Fritz Rasp…;
Roteiro: Thea von Harbou, Fritz Lang;
Cinematografia: Fritz Arno Wagner;
Música: Werner R. Heymann;
Produção: Erich Pommer;
Ano: 1928;
País: Alemanha;
Gênero: Ação, Aventura.

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