Não é estranho que quanto maior o acesso à informação e à diversidade, mais encurtamos as paredes do nosso mundo?

Você já deve ter ouvido falar de como criamos bolhas de realidade nas redes sociais ou que se pesquisar por “mulher bonita” ou “homem bonito” no Google, o resultado trará um único padrão de beleza. Faça o teste, eu esperarei aqui.

“Scholars worry that the social network can create “echo chambers”, where users see posts only from like-minded friends and media sources.” (Blue Feed, Red Feed – The Wall Street Journal)

Agora, diferentemente da “parcialidade dos algoritmos” mencionada na matéria do Nexo, deveríamos preocupar-nos com o nosso papel nessa história. O algoritmo é programado para ser assertivo na entrega: quanto mais pessoas clicam em um resultado, mais relevante ele se torna para pesquisas futuras.

É preciso encontrar outras belezas, como no projeto The Atlas of Beauty.

A verdade é que é mais fácil apontar dedos para um inimigo invisível, quando o establishment somos nós. Nesse sentido, temos limitado nossa experiência em arte, beleza, lugares, contatos pessoais e assuntos do cotidiano porque, uma vez formada a bolha, ela se retroalimenta. Daí a importância de ser esquisito para sair dela.

O que é ser esquisito?

Uma das minhas esquisitices é que gosto de palavras e por isso escolhi “esquisito” a dedo. Você deve ter em mente o significado em português, isto é, o de algo “estranho”, “exótico” ou até mesmo “feio”.

Porém, quero chegar mais próximo do espanhol ou do inglês, que guardam o sentido do latim exquisitus/exquirere, ou seja, “procurar, apurar”. Ainda em outras palavras, é cuidadosamente ir atrás de algo.

Por que é importante ser esquisito?

Você já viu O Lagosta (The Lobster, de Yorgos Lanthimos)? É um filme sobre uma distopia em que as pessoas são julgadas pela sua capacidade de estar em relacionamentos. Para arranjar parceiros, elas se hospedam em um hotel e caçam solteiros enquanto tentam achar alguém com qualquer similaridade a elas.

Se não conseguem um companheiro até o fim da estadia, são transformadas em animais, como cachorros, pôneis ou lagostas. Mas, assim como os casados, os solteiros têm regras tão absurdas quanto. A propósito, a produtora A24 é deliciosamente esquisita e seus filmes são muito muito muito muito muito bons.

O que impressiona em O Lagosta é como a premissa transforma-se em uma história de amor emocionante, singela e atual. Atual porque seus comentários soam bastante familiares, como na cena em que o protagonista é obrigado a escolher os sapatos-padrão para entrar no hotel. Ele pede o número 44 ½, mas só existem 44 ou 45.

Isso representa o que alguns chamam de os perigos secretos do big data. Isto é, o perigo de a experiência humana ser traduzida em números e só recebermos de volta os denominadores comuns. Isso resulta em um mundo sem personalidade e sem meios-termos igual ao filme (como já estamos criando).

Ser conscientemente esquisito é defender a variedade de expressão e a existência de coisas esquisitas como esse filme ou o sentimento que ele expressa. É também manifestar que, embora as ferramentas possam moldar a sociedade por meio de dados, elas não devem decidir sozinhas o que será de nós. Precisamos mostrar o que é verdadeiro e singular em nossa humanidade.

“A one-size-fits-all approach rarely, if ever, fits everyone.” (Paul Goad – The Guardian)

Como ser esquisito?

Só você poderá definir o seu jeito de ser esquisito ou esquisita. O que darei aqui são alguns exemplos para reflexão e que poderão ajudar você a desenvolver a sua esquisitice.

Seja consciente: você não precisa ver nem saber tudo o que existe. Mas, uma vez que veja algo relevante ou que lhe desperte atenção, como uma notícia, descubra o quanto possa a respeito. Leia o máximo de fontes à sua disposição, concordando ou não com elas; leia tudo e somente então pondere.

Seja curioso: tudo está conectado quando você se dispõe a descobrir as conexões. Digamos tenha gostado de um filme: pense no que gostou e vá atrás – que outros títulos trabalham o mesmo tema, de que projetos já participaram o diretor e os atores, quem escreveu o roteiro, quem compôs a trilha sonora etc.

Aprofunde-se: sabe por que o jornalismo para as massas transformou-se em uma coleção de listas numeradas e coleções de GIF? Porque nós comprovamos que isso funciona conosco. Portanto, se você quer um mundo com algo mais do que artigos sobre “As 5 bundas mais famosas da TV”, vai precisar ler algo a mais. Não tenha medo do textão nem se desculpe quando fizer um.

Seja um pouco aleatório: a mesma bolha que criamos nas redes sociais está presente no que assistimos, no que ouvimos, no que lemos… Assim como é importante ser curioso e ir atrás, deixar-se surpreender é igualmente bom. Pule as indicações automáticas da Netflix e do Spotify e aceite algo que não tem relação com qualquer experiência prévia. Converse com alguém desconhecido na rua, entre num local que nunca foi, arrisque-se – você jamais verá algo diferente se não abrir os olhos para isso.

“A certain amount of randomness in our lives allows for new ideas or modes of thinking that would otherwise be missed.” (Carlo Ratti, Dirk Helbing – Al Jazeera)

Tenha propósito e senso crítico: nem tudo o que há na internet é bom ou deve ser empurrado às outras pessoas simplesmente porque existe. Lembremos que ser esquisito é buscar com cuidado. Propósito, por exemplo, é saber que é preciso ter mais representatividade para negros na televisão. Mas uma coisa é achar que os filmes da Madea de Tyler Perry são bons por causa disso, outra é reconhecer os méritos de um filme fora de série como Moonlight.

Crie, preserve e compartilhe: é ótimo que você tenha gostos esquisitos! Fale deles com paixão, mantenha vivo aquilo que encanta você e ajude a compartilhar quem compartilha dos seus interesses. Passe adiante, mesmo que seja só para mais uma pessoa. Por um momento, fodam-se keywords e trending topics, se você tem uma receita surpreendente de bolo de cenoura com mostarda ou uma indicação de filme sobre vampiros de uma diretora iraniana, vá fundo, seja esquisito.

E, por último, divirta-se!