A evolução e influência dos processos de gravação musical

LP, fita cassete, CD, mídia virtual… Em menos de cinquenta anos o processo de gravação e distribuição de álbuns teve diversas revoluções que auxiliaram a transformar a produção musical e a maneira como a escutamos. Aqui está um pouco dessa história.

Escutar música antes do ano de 1948 era algo bastante complicado. Só existiam então os discos com gravações analógicas para gramofone, tipicamente em vinil, de 78 ou 45 rotações por minuto. Eles tinham uma duração irrisória, de mais ou menos 3 a 6 minutos por lado. E podemos imaginar a qualidade – ou a falta dela – de que dispunham.

Era de se esperar que algum músico ou produtor tomasse partido diante da situação e procurasse algum outro método de distribuição, com maior duração e melhor som. Quem se interessou por resolver o problema foi um homem de espírito e gênio, mas não um artista. O engenheiro naturalizado estadunidense Peter Carl Goldmark estava em uma festa quando sentiu que precisava agir. Segundo suas palavras:

“Eu estava em uma festa a escutar Brahms sob a execução de Horowitz. De repente houve um clique. O som mais horrível já inventado pelo Homem, justo no meio da música. Alguém se apressou para trocar os discos. O clima desfez-se. Eu soube ali que tinha de parar com esse tipo de coisa”. – Peter C. Goldmark (fonte)

1945 foi um ano no qual as pessoas ainda escutavam Brahms em festas, porém eram subitamente sacudidas de seus transes musicais pelo bruto cessar da reprodução. Hoje, se quiseres escutar as Danças Húngaras (Hungarian Dances / Ungarische Tänze WoO 1) ou o álbum do artista Pop mais recente, não te esqueças de agradecer a Goldmark por seu empenho.

Durante três anos ele trabalhou no que se tornaria o disco de 33 ⅓ rpm, ainda analógico, com uma duração média de 20 minutos por lado e de até 30 minutos por lado para a música erudita, tão amada por este inventor. Somente então os artistas e produtores puderam criar álbuns como agora os conhecemos.

Muitos músicos tiveram de enfrentar o problema de não terem material suficiente com o que preencher todo o espaço do disco, pela falta de costume com a nova mídia disponível. Por isso tantos covers ou músicas de “encheção” durante as décadas de 50 e 60.

Mas a situação mudou a partir de 1965 com o sucesso de Rubber Soul, de The Beatles. Este álbum surpreendente dos garotos de Liverpool chamou a atenção de outros garotos, os californianos da banda The Beach Boys, liderados por Brian Wilson. Rubber Soul influenciou diretamente Wilson na criação de Pet Sounds, considerado um dos melhores álbuns de Rock da história, e este por sua vez influenciou os ingleses a criar Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (para começar a eterna disputa entre qual deles é de fato o melhor). Estes três projetos foram essenciais para redefinir-se o conceito de álbum, como descreve Wilson a respeito das impressões que teve com Rubber:

“Eu realmente não estava preparado para a unidade. Senti que tudo estava junto. Rubber Soul era um conjunto de músicas… que de algum modo se combinavam como nenhum outro álbum fez, e eu estava bastante impressionado”.  – Brian Wilson (fonte)

Além de trazer obras eruditas completas em um único disco, essa nova tecnologia não mudou apenas a forma de se criar álbuns, mudou também a própria composição das músicas. O Rock Progressivo, por exemplo, jamais seria possível sem o disco de 33 ⅓ rpm. E sem esse ganho em espaço não existiriam gravações de músicas como In-A-Gadda-Da-Vida, de Iron Butterfly, Do What You Want, de Blind Faith, ou o registro ao vivo de Whipping Post em The Filmore Concerts, de The Allman Brothers.

Em 1980 foi a vez de uma nova tecnologia revolucionária ser apresentada ao grande público. No final dos anos 70 as empresas Sony e Philips uniram forças para a criação de um novo protótipo de disco, desta vez bem menor e digital: surgia o Compact Disc. O tamanho de armazenamento do CD deve-se à imposição do então presidente da Sony Records, Norio Ohga (outro amante de música erudita e amigo íntimo do maestro Herbert von Karajan), ao decidir que na mídia deveria caber a versão de maior duração constante no catálogo da Polygram da Nona Sinfonia (Symphony nº. 9 / 9. Sinfonie Op. 125), de Beethoven, com 74 minutos.

No entanto outro compositor teve o privilégio de receber a primeira gravação em CD. Em 1983 Karajan conduziu a Filarmônica de Berlin para gravar Uma Sinfonia Alpina (An Alpine Symphony / Eine Alpensinfonie Op. 64), de Richard Strauss. Depois vieram muitos outros álbuns em formato digital, ou conversões do analógico para o digital (as famosas edições “Remastered”).

O predomínio das mídias físicas continuou certo por mais uma década, até que o uso dos computadores pessoais e principalmente da internet se difundisse. Daí resultou outra revolução, a das mídias virtuais. A última barreira fora superada, e se isso não afetou muito a criação das músicas, com certeza abriu um leque imenso de opções em matéria de qualidade sonora e sobretudo de distribuição das mesmas. Tanto que agora muitos ouvintes não conhecem mais os álbuns, esses conjuntos de músicas, pois agora têm acesso direto às faixas favoritas. A “unidade” de que fala Wilson aos poucos é deixada para trás.

A maioria dos exemplos de alguma evolução no quesito criação musical refere-se mais à maneira como as músicas se relacionam entre si ou com coisas alheias a elas. Vale citar as experiências de Radiohead na intersecção de In Rainbows e OK Computer, e de Aphex Twin com a formação de imagens em espectrógrafos.

Com a popularidade dos programas de compartilhamento de arquivos entre usuários, Peer-to-peer – ou apenas P2P -, a propagação de álbuns e canções deu-se quase que exclusivamente através do formato de compressão MP3, devido ao baixo uso da memória de armazenamento e da vantagem de escolha entre o bit rate mais adequado a cada um. Entretanto, com o passar do tempo, a capacidade de armazenagem de dados dos computadores melhorou e a busca por mais qualidade de reprodução por parte de alguns usuários fez aumentar a concorrência, com arquivos como AAC, FLAC e OGG.

E tudo isso aconteceu em menos de meio século! Há 63 anos as pessoas dificilmente encontravam discos para as músicas que apreciavam, e ouvi-los era uma labuta. Hoje podemos decidir se queremos nossos álbuns favoritos em mídia física, ao prazer do toque de nossos dedos, ou apenas no âmbito virtual. E temos a livre escolha de onde escutá-los: em aparelhos específicos, computadores, reprodutores portáteis, celulares, geladeiras, esteiras ergométricas… É, viva o progresso!

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