Rastros de Ódio, de John Ford

Se há alguma dúvida de que John Ford seja o maior diretor do gênero Western, não há quanto a quem seja o maior ator: John Wayne. Juntos eles fizeram 14 filmes e este é o melhor deles e um dos grandes do cinema mundial. Em The Searchers Ford exibe um olhar cuidadoso para as paisagens e as pequenas emoções, enquanto Wayne interpreta com segurança um personagem complexo e polêmico.

Pontos principais:

  1. A direção de John Ford e a fotografia de Winton C. Hoch são preciosas;
  2. John Wayne não demonstra medo no papel mais controverso de sua carreira;
  3. É um filme cercado de polêmicas que só o melhoram;
  4. A chegada de Ethan e as cenas de tensão são inesquecíveis;
  5. “That’ll be the day”.

Rastros de Ódio é um faroeste feito por homens e para homens. E é, como Taxi Driver, de Martin Scorcese, um filme verdadeiramente americano, porque não somente retrata uma período da História, mas também põe o dedo em suas feridas.

Existe uma grande polêmica em torno da representação do preconceito nesta obra. Não que seus criadores ou atores fossem preconceituosos – embora haja certas controvérsias -, o problema está no posicionamento do protagonista diante dos povos nativos. Esta é a discussão: passamos duas horas a assistir a um anti-herói que destila ódio contra os indígenas e tem suas ações motivadas não sabemos pelo quê. Vamos esclarecer um pouco…

O filme começa com uma porta que se abre. Em 1868, no Texas, uma mulher sai à varanda e vê um homem em seu cavalo se aproximar à boa distância. Não conhecemos quem ele é, porém toda a família se põe a esperá-lo. Uma garota exclama: “É o tio Ethan”, e ainda não o identificamos. Ben, irmão de Ethan, vai saudá-lo. Vemos alinhadas em diagonal as imagens de Ben, do estranho e da paisagem; concluímos disso que ele vem de algum lugar longínquo, onde esteve muito tempo, e que não pertence por completo à família.

The outsider in The Searchers

Em outras cenas ele é de novo visto de fora das casas. Esta é uma ideia central da trama, a incapacidade de Ethan de se acomodar ou envolver-se. Ele é um homem de grande energia e dureza, e que por isso precisa constantemente encontrar meios de canalizar essa energia e dureza. Lar para ele é algo impossível.

The outsider in The Searchers 2

Outro detalhe sobre ele é que muito de sua energia está voltada para o ódio contra os indígenas. Logo no começo já deixa claro todo o seu preconceito. Aliás, os primeiros minutos da projeção são de suma importância para tentarmos entender as motivações do personagem.

Quem vem a Rastros de Ódio à espera somente de ação pode não perceber algumas sutilizas essenciais da história. A maneira como se olham Ethan (Wayne) e Martha (Dorothy Jordan), esposa de seu irmão, é de uma revelação impressionante e, no entanto, nada a respeito das emoções dos dois é dito. Tudo fica subentendido, todavia parece o olhar de duas pessoas que sempre se amaram e não se viam há 8 anos, pois Ethan lutara pelo exército confederado na Guerra Civil Americana e depois estivera ausente por mais três anos, provavelmente em ocupações ilegais.

Temos aí um bom motivo para a ausência dele. Talvez ele quisesse fugir desse amor trazido pela esposa de seu irmão, mas o que ele fez durante esse tempo todo? Sabemos que lutou com os mexicanos contra a França, que apareceu com moedas de ouro não cunhadas e que “se encaixa em muitas descrições”. Sabemos também que odeia os Comanches – uma tribo indígena – e não vemos o exato porquê disso. É possível tê-los conhecido em uma de suas aventuras, porque domina sua linguagem e seus costumes.

Somente após certo acontecimento no qual está envolvido o rapto de uma das filhas de Martha e Ben (quiçá de Ethan) é que encontramos razão e vazão para as atitudes do protagonista. A maior parte da história se desenvolve a partir da busca dele e do jovem Martin (Jeffrey Hunter) por essa menina. E que busca! Que paisagens incríveis!

Landscape in The Searchers

John Ford e seu diretor de fotografia deram uma aula de como se registrar uma paisagem. O Monument Valley é um personagem à parte com sua aridez e sua vastidão. Ford aproveitou-o ao máximo em cada quadro; as composições são impecáveis, geralmente com o primeiro plano no terço inferior da imagem, o segundo plano na metade e o céu no terço superior. Ou o primeiro plano no terço inferior e o céu nos dois terços acima, tudo planejado centímetro a centímetro.

Composition in The Searchers

É claro que o ambiente não se sobrepõe aos personagens de carne e osso, ele apenas ressalta a dificuldade da tarefa dos mesmos. Tanto que as figuras humanas, quando próximas da câmera, são mostradas de um ângulo bastante baixo, a modo de elevá-las do meio e da situação em que se acham, pois é preciso muita força para superar circunstâncias assim.

Uma arma apontada também vem a calhar...
Uma arma apontada também vem a calhar…

Ainda em matéria de câmera, os close-ups limitam-se a aparecer em momentos de profunda expressão psicológica dos caracteres ou de grande tensão. Já os planos médios são amplos e repousam em torno da cintura dos personagens, com o céu azul por trás, na tentativa de mostrar o todo dos acontecimentos.

O filme termina com uma lembrança da primeira cena: pessoas esperam na varanda, Ethan chega ao longe, mas desta vez uma porta se fecha e ele fica lá fora. Ele não pode permanecer, pois não é da sua natureza. Só que isso não nos surpreende – já o sabíamos desde o princípio.

Ficha técnica:
Título: Rastros de Ódio / The Searchers;
Direção: John Ford;
Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Natalie Wood, Ward Bond, Dorothy Jordan, Walter Coy…;
Roteiro: Frank S. Nugent, Alan Lee May;
Cinematografia: Winton C. Hoch;
Edição: Jack Murray;
Produção: C. V. Whitney Pictures;
Ano: 1956;
País: Estados Unidos;
Gênero: Western, Drama.

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