Sangue da Pantera, de Jacques Tourneur

Se há algo que podemos agradecer a Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), além de ser um filme com tal excelência, é que devido ao seu insucesso comercial na época a RKO decidiu investir em filmes de suspense com baixo orçamento para compensar as perdas. Sob o comando do produtor Val Lewton, nos anos seguintes a RKO lançou vários títulos de enorme sucesso, com início em Sangue da Pantera (Cat People, 1942).

O papel de Lewton não deve ser subestimado. Ele especificava o que queria de cada diretor e como desejava que fossem feitos os filmes sob sua supervisão, o que para o bem dos cinéfilos provou-se ser algo positivo. Ao lado de Jacques Tourneur e de outros bons diretores, Lewton produziu entre 1942 e 1945 nada menos do que nove filmes.

Devido aos baixos orçamentos, os filmes representavam histórias simples, conquanto assustadoras, com elencos pequenos e poucas locações, geralmente reaproveitadas de outros sets, como a escadaria de Soberba (The Magnificent Ambersons, de Orson Welles, 1942). Isso possibilitou uma produção em série; as gravações de Cat People, por exemplo, duraram apenas dezoito dias.

No entanto, se faltou dinheiro, sobrou criatividade para contornar tudo aquilo que os realizadores não poderiam mostrar. Este filme tem duas sequências de tensão memoráveis, a da perseguição em Central Park e a da piscina. Ambas as sequências são bastante eficazes no efeito que pretendem causar e usam poucos elementos para causar esse efeito. Edição precisa, um punhado de sons e o jogo de luz e sombras são o bastante para causarem arrepios. As sombras que evocam tanto suspense ao redor da piscina não são mais do que mãos e um lenço contra as luzes.

Cat People  (pool scene)

A história começa com o velho boy meets girl; Oliver (Kent Smith, não muito empolgado) encanta-se pela bela Irena (Simone Simon), sérvia de nascimento, que tem uma estranha fascinação pela pantera do zoológico de Manhatan. Eles vão para o apartamento dela e lá é aprofundada essa fascinação.

É muito interessante como é criado o clima dessa cena. Na entrada do apartamento as sombras confinam os protagonistas numa espécie de jaula, artifício que não é repetido noutras tomadas do mesmo local. Já dentro há uma atmosfera felina, com ambientes escuros, pinturas de gatos nas paredes, lendas misteriosas contadas por Irena e, é claro, a presença desta. Simone Simon é toda uma gata, com sua feição, seus gestos e sua voz. Foi uma escolha bastante acertada para o papel.

Cat People (cage shadows)

Com o tempo os dois se apaixonam e se casam, mas há um problema: por causa da lenda contada por Irena, ela e Oliver não podem consumar seu amor. Ela teme que se um homem a beijar e ela se sentir irritada ou com ciúmes dele, então ela poderia fazê-lo em pedaços ao assumir a forma de uma pantera. A premissa, embora aqui pareça boba, no filme é tratada com mais sutileza pois os demais personagens tratam com incredulidade o caso e tentam resolvê-lo como uma questão psicológica.

Aliás, eis aí duas formas efetivas de se fazer suspense. A primeira é não saber qual é a verdadeira fonte do mistério; obras do gênero costumam fazer um bate-e-volta entre a realidade e o irreal, a negar e engrandecer o mistério. A segunda é permear o suspense de tensão sexual. Filmes de suspense e terror são recebidos pelos espectadores como uma experiência sexual (tensão e relaxamento até um clímax), como também são produzidos por meio de elementos sexuais (negação, frustração etc).

Aqui o problema sexual é avançado na cena que representa a comemoração do casamento entre Oliver e Irena. Eles estão entre amigos, então a câmera mostra ao longe uma mulher com traços e vestuário quase que felinos; essa estranha se aproxima de Irena e a chama de “minha irmã”. Depois desse encontro, Oliver passa sua lua de mel sem qualquer mel.

Cat People (Elizabeth Russell)

Logo, de um lado temos a frustração sexual de Irena, que não consegue satisfazer seu marido, talvez por causa de um pendor homossexual, enquanto do lado de Oliver temos a frustração do marido que não pode tocar sua esposa. Para ele felizmente há a companhia da igualmente bela Alice (Jane Randolph), sua companheira de trabalho, que revela amá-lo.

Cat People (Jane Randolph)

Alice não é a mais cândida das mulheres, posto que saiba fazer seus jogos, como ao recomendar ao tratamento de Irena um psicólogo notório por seduzir suas pacientes. Junto com os demais, o Dr. Judd (Tom Conway) formará esse quarteto repleto de conflitos de interesses, desejos expressos ou subentendidos, além de muitas incertezas.

Cat People é um bom filme, sensual e cheio de sustos para a audiência. Lewton e Tourneur fizeram um ótimo trabalho e ditaram a fórmula para outros realizadores do gênero, tanto de filmes B quanto das grandes produções de Hollywood.

Bônus: em 1982, Paul Schrader dirigiu uma nova versão de Cat People, com Nastassja Kinski e Malcolm McDowell. Nele o tema do homossexualismo é substituído por incesto, mas o remake não tem quaisquer das características que atribuíram qualidade ao original. Aqui é falado de uma repressão sexual, porém nudez e sexo não faltam ao longo da projeção. E enquanto o perigo é apenas sugerido na versão de 42, nesta é mostrado muito claramente e com efeitos risíveis. Muito gore e peitos, sem qualquer suspense (nada contra peitos, são inclusive o ponto alto do filme).

Ficha técnica:
Título: Sangue da Pantera / Cat People;
Direção: Jacques Tourneur;
Elenco: Simone Simon, Kent Smith, Jane Randolph, Tom Conway…;
Roteiro: DeWitt Bodeen;
Cinematografia: Nicholas Musuraca;
Edição: Mark Robson;
Música: Roy Webb;
Produção: Val Lewton;
Ano: 1942;
País: Estados Unidos;
Gênero: Suspense.

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