Se7en, de David Fincher

“People don’t want a champion. They want to eat cheeseburgers, play the lotto and watch television.”

A única coisa ruim sobre Seven – Os Sete Pecados Capitais, é esse título traduzido para o português. Portanto, doravante nos entenderemos pelo original.

Para quem não assistiu, deixo a cortesia de uma resenha 100% sem spoilers e sem glúten. Para quem já teve o prazer – e o susto – de vê-lo, fica aqui uma outra visão sobre esse clássico moderno.

Já começo com a afirmação de que Se7en é muito mais que um suspense policial. O foco do filme não é a investigação dos assassinatos em série. Isso é o fio condutor para algo maior: o drama humano. O que está em jogo é o conflito de visões de mundo entre os detetives Somerset (Morgan Freeman) e Mills (Brad Pitt) e qual há de prevalecer no final.

Nas primeiras cenas observamos o contraste dos ambientes de cada um, além de ouvirmos os atritos explicitados nos diálogos. Somerset é um veterano às vésperas de aposentar-se, supercapacitado em seu trabalho, mas já dessensibilizado pelo mesmo. Ele se impõe uma ordem própria para escapar do caos ao seu redor, como ilustrado pelo metrônomo que usa para dormir.

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Mills é o oposto disso. Acaba de se mudar para a cidade, daí a bagunça em sua casa. É novato, explosivo e quer mostrar ao que veio.

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Os dois são forçados a trabalharem juntos com o surgimento de um crime horrendo, o primeiro de uma série de assassinatos baseados em “fucking Dante” e nos sete pecados capitais de outros textos clássicos. Contudo, relembremos, capturar o responsável não é o objetivo do filme, mas dos personagens.

A direção de David Fincher, a cinematografia de Darius Khondji, a trilha sonora de Howard Shore e o elenco, inclusive os secundários como Gwyneth Paltrow, R. Lee Ermey e Leland Orser, tudo é muito bem executado – e igualmente sufocante. A brutalidade dos crimes e a escuridão que paira sobre a narrativa exasperam.

Em 122 minutos, somos confrontados com uma sociedade apática, que procura na televisão

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e em notícias frugais um pequeno escapismo da barbárie que a domina.

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Não à toa Somerset preferiu isolar-se e, ultimamente, fugir disso tudo.

“Far away from here”
“Far away from here.” Somerset

Até que ele é confrontado com o vigor renovado de Mills quando iniciam as investigações. Mas não é por estarem próximos que estejam unidos desde o princípio.

Conforme notado pelo canal Every Frame a Painting1, a dinâmica da relação entre Somerset, Mills e o capitão (Ermey) é triangular, porque todos se opõem de algum modo. Percebemos isso na cena do gabinete, na qual Somerset recusa o envolvimento dele – e de Mills – no caso.

Vê-se o triângulo enquanto Somerset e o capitão conversam. Mills é ignorado e, quando tenta chamar a atenção, é desprezado até que exclama “You can talk that to my face”. Só então Somerset se dirige a ele. O formato só é rompido depois, mas para chegarmos a esse ponto precisamos fazer uma pequena digressão sobre o roteiro.

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O cânone narrativo obedece o padrão de três atos, isto é, três partes que estruturam a maioria das histórias que conhecemos. No caso de Se7en vamos arredondar a duração para 120 minutos e ver como isso funciona na prática.

O primeiro ato corresponde a um quarto da narrativa, portanto aos 30 minutos precisa acontecer algo para engatar a história. No filme, no minuto 31 Somerset é convidado por Tracy (Paltrow) para jantar com ela e Wills, assim entrando no mundo deles.

E isso é condicionado por uma sequência de acontecimentos anteriores que levaram à aproximação dos dois detetives. Primeiro, Somerset é intrigado por uma nova pista na cena em que tem seu nome apagado da porta. Ele interrompe a ação e dá mais uma chance ao caso.

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Em seguida, se no minuto 15 havia aquele triângulo, no 23 é rompido. De novo assistimos à dinâmica triangular dos personagens, porém logo Somerset junta-se a Mills com as evidências encontradas, ficando lado a lado.

se7en david fincher triangle2

Por fim, toda a belíssima sequência dos estudos na biblioteca a partir dos 25 minutos. O mais experiente usa toda a sua inteligência para guiar a paixão do novato.

se7en david fincher mills

Aqui cabe uma menção à iluminação de Se7en. A cinematografia aproveita-se dos cenários claustrofóbicos e escuros para criar suspense com fontes pontuais de luz, como as diversas lanternas usadas nas cenas criminais.

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Ou revelar momentos de poesia visual, como na referida biblioteca.

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Isso nos leva ao jantar na casa dos Mills. Exceto pelo final, uma locação externa, essa é a única cena com abundância de cor. Há um grande contraste entre o amarelo cálido desse momento e o resto dos locais visitados.

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Por isso defendo que Se7en diz mais respeito à relação entre Somerset e Mills que à descoberta do criminoso. Não é um avanço na investigação que nos conduz ao segundo ato, é a formação da amizade nessa noite.

A partir daí, o desenvolvimento é dividido em duas partes de mais ou menos 30 minutos, separadas pela “entrada na caverna”2, ou seja, um momento de grande perigo que muda radicalmente o ritmo da narrativa. Isso acontece entre 64 e 68 minutos, nas investigações que encaminham os protagonistas à porta de John Doe.

se7en david fincher john doe

Então começa uma perseguição frenética atrás do suspeito. O uso regrado da câmera é essencial para a apreensão do espectador, algo que muitos diretores ignoram. Fincher não é adepto da câmera na mão, portanto, quando a emprega, é em nome de um efeito realçado. Isso é evidente nos instantes finais da projeção, em que Somerset e o suspeito são filmados estaticamente, enquanto Mills é apresentado em shaky cam por causa do seu estado emocional.

Os detetives continuam a investigação, com a descoberta de outros crimes, até a revelação do culpado com 95 minutos.

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Muitos fatos prenunciam a virada do terceiro ato – e ajudam-nos a entender as suas consequências. Por exemplo, há a reveladora conversa entre Somerset e Mills, cada um expondo suas visões de mundo.

se7en david fincher mills somerset
“This isn’t going to have a happy ending.” Somerset

Para mim, essa é uma das cenas mais interessantes de Se7en, mais até que o suspense, porque aborda sem rodeios o cerne moral enfrentado pelos personagens.

Somerset fala de sua aposentaria e de sua desilusão:

Apathy is the solution. I mean, it’s easier to lose yourself in drugs than it is to cope with life. It’s easier to steal what you want than it is to earn it. It’s easier to beat a child than it is to raise it. Hell, love costs: it takes effort and work.”

Ao que Mills responde:

I don’t think you’re quitting because you believe these things you say. I don’t. I think you want to believe them, because you’re quitting. And you want me to agree with you, and you want me to say, “Yeah, yeah, yeah. You’re right. It’s all fucked up. It’s a fucking mess. We should all go live in a fucking log cabin.” But I won’t. I won’t say that. I don’t agree with you. I do not. I can’t.”

E o que acontece então? Somerset é abalado pela oposição de Mills e o vemos literalmente quebrar a sua ordem forçada quando ele arremessa o metrônomo no chão.

se7en david fincher disorder 2

Por isso o fim é um dos maiores momentos do Cinema. Esqueçamos os crimes, esqueçamos o mistério, nos instantes derradeiros somos confrontados sobretudo com a tragédia de duas posturas divergentes com relação à realidade. Isso é o que torna o filme tão emocionante, porque uma boa história, seja de ação, de suspense ou de comédia, na verdade é sobre pessoas.

"Here we stand, worlds apart, hearts broken in two, two, two." Journey
“Here we stand, worlds apart, hearts broken in two, two, two.” Journey

O desfecho é significativo. O final que vemos não é o inicialmente pretendido, mas acabou sendo uma solução condizente³. Ali há um espelhamento da cena no primeiro ato em que Somerset pede a um taxista para ir “far away from here”. Agora, ele diz: “I’ll be around”.

se7en david fincher around

Sobra-nos apenas um mistério: Andrew Kevin Walker, tendo escrito um roteiro tão bom quanto o de Se7en, como não produziu nada mais de notável?

Ficha técnica:
Título: Seven – Os Sete Pecados Capitais / Se7en;
Direção: David Fincher;
Elenco: Morgan Freeman, Brad Pitt, Gwyneth Paltrow, R. Lee Ermey, Leland Orser…;
Roteiro: Andrew Kevin Walker;
Cinematografia: Darius Khondji;
Edição: Richard Francis-Bruce;
Música: Howard Shore;
Produção: Cecchi Gori Pictures, Juno Pix, New Line Cinema, Arnold Kopelson, Phyllis Carlyle;
Ano: 1995;
País: Estados Unidos;
Gênero: Suspense, Policial, Drama.

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