Shame, de Steve McQueen

Shame é o retrato do vício tanto quanto o é Farrapo Humano (The Lost Weekend, 1945, de Billy Wilder). Aqui, no lugar do alcoolismo, a ninfomania é o problema de Brandon (Michael Fassbender), o protagonista. E a abordagem desse tema pelo diretor Steve McQueen é tão cruel quanto bela.

O filme pode revelar-se uma experiência dolorosa para muitos espectadores porque o Cinema moderno – e, sobretudo, o Cinema comercial – acostuma-nos a reações rápidas dos personagens e cortes bruscos na edição. E é costume também frisar com falas aquilo que a imagem não tem tempo de expressar. No entanto, como em Shame aquilo que se cala é o que dói mais.

Não será uma má experiência. Pelo contrário, será algo profundo e maravilhoso. Considero este filme, ao lado de Direito de Amar (A Single Man, 2009, de Tom Ford) e O Segredo de Seus Olhos (The Secret in Their Eyes / El secreto de sus ojos, 2009, de Juan José Campanella), como o que há de mais emocionante em termos de obras cinematográficas dos últimos anos. A dor transcende o mero sofrimento e transforma-se em catarse.

Muito cedo na projeção somos apresentados à rotina do personagem centram e à forma como seu problema se constitui. Isto é, neste momento ainda não é um problema, pois Brandon é um homem em pleno potencial, um bem-sucedido publicitário, com dinheiro suficiente para bancar suas diversões.

Entretanto, com o passar do tempo percebemos como sua vida e solitária e vazia. Ele vive sem passatempos além da pornografia; sem companhia além dos colegas de trabalho e das mulheres com quem dorme – muitas delas pagas para isso. E de família paira apenas o espectro de sua irmã nas mensagens telefônicas não respondidas, enquanto Brandon segue com sua avassaladora rotina sexual.

Shame (hobbies)

É a chegada de sua irmã, Sissy (Carey Mulligan), que nos dá os insights necessários para entender o que há por trás da situação de seu irmão mais velho. O reencontro deles já é estranho: ele, com um tato de basebol em mãos, entra no banheiro para se surpreender com Sissy nua, e assim ela fica enquanto conversam.

Ela se hospeda no apartamento de Brandon porque aparentemente não tem mais onde ficar ou, como afirma, tem alguns gigs para fazer em Nova York. Sissy é cantora e sua apresentação traz à tona a sensibilidade de seu irmão numa cena longa e comovente.

Shame (Sissy, Brandon)

O que mais impressiona em Shame é o tempo que cada tomada leva para explorar as emoções dos personagens. Nesse quesito todo o elenco é excelente, com interpretações certeiras e delicadas do começo ao fim.

Tomemos como exemplo a primeira cena no metrô, na qual Brandon flerta com uma bela mulher à sua frente. Veja-se cada detalhe, nos tipos de sorrisos que ambos trocam, para onde olham e o modo como os olhos da mulher embaçam conforme ela é dominada pela emoção.

Shame (metro scene)

Nessa ocasião Brandon diz sim à tentação, porque para ele tornou-se uma atitude padrão e ele não a reconhece como problema. O que opera essa mudança de percepção é o confronto com sua irmã.

Enquanto Brandon tem essa carência física, Sissy sofre de um enorme vazio afetivo. Suas atitudes são quase infantis e ela não se preocupa com o pudor corporal, ao contrário de Brandon, ao passo que dá maior atenção aos laços familiares.

E o irmão sente-se desconfortável com a sexualidade da sua irmã, talvez mesmo com ciúmes. Então começa-se a suspeitar de que a disfunção na vida sexual dele tenha relação com Sissy. É como se Brandon fosse o corpo e Sissy fosse a alma; separados eles nunca seriam uma pessoa inteira.

Concomitantemente com o aparecimento de sua irmã, o protagonista envolve-se de modo mais sério com uma colega de trabalho, Marianne (Nicole Beharie). Eles têm um encontro formal com direito a não fazerem sexo depois e tudo.

É quando ele dá o próximo passo em sua recuperação: ele reconhece o vício, tenta livrar-se dele. Com uma chance de recomeçar, apega-se a Marianne, mas não consegue “fazer as coisas funcionarem”. Erra quem o crê racista por não transar com a única mulher negra com quem ele se envolve. Na verdade, ela é a única por quem ele algum tipo de afeição, por isso não consegue fazer com ela o que fizera com as outras.

O terceiro passo do vício é a recaída. E é uma caída a um estágio mais fundo do que experimentado antes.

A noite que Brandon passa na cidade é uma sequência dilacerante. O personagem se transforma, o próprio rosto dele torna-se algo monstruoso. Não há prazer no que ele procura; o que deseja é a dor, a punição pelo excesso.

Shame (despair)

Então há o choque, na cena mais dolorosa do filme. Brandon enfim percebe que o prazer é impossível e se este prognóstico não é demasiado otimista, é melhor do que consumir-se numa busca vã. Ele aprende a dizer não.

Shame é lindo de se ver. Um bocado triste, mas compensa a cada quadro (bem, a cena inicial do banheiro eu dispensaria). McQueen e Sean Bobbitt, diretor de fotografia, fizeram um trabalho brilhante com as imagens.

Outro ponto alto do filme é a trilha sonora, da seleção musical à composição original por Harry Escott, a música é sutil e profundamente emotiva. É mais um mérito para uma obra de muitas qualidades.

Ficha técnica:
Título: Shame;
Direção: Steve McQueen;
Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, Nicole Beharie, James Badge Dale, Lucy Walters, Elizabeth Masucci…;
Roteiro: Steve McQueen, Abi Morgan;
Cinematografia: Sean Bobbitt;
Edição: Joe Walker;
Música: Harry Escott;
Produção: Iain Canning, Emile Sherman…;
Ano: 2011;
País: Estados Unidos;
Gênero: Drama.

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