Swiss Army Man, de Daniel Kwan e Daniel Scheinert

O que um cadáver que peida pode ensinar-nos sobre amor e aceitação?

No Brasil, o longa de estreia dos diretores conhecidos como Daniels recebeu a tradução Um Cadáver para Sobreviver. Ótima, não? Não. Para completar, veio direto via streaming, embora tenha saído premiado de Sundance por sua direção e conte com atores conhecidos como Paul Dano e Daniel Radcliffe.

Acredito que a baixa receptividade do filme se deva à dificuldade de encaixá-lo em qualquer gênero. É drama, comédia e musical ao mesmo tempo, com um roteiro que não possui comparações próximas. É original e diferente, no melhor jeito de diferente.

Swiss Army Man narra a história de Hank (Dano), um rapaz perdido numa ilha deserta depois de fugir de barco. Quando está prestes a se matar ele encontra Manny (Radcliffe), um cadáver com talentos especiais. Os dois então começam a improvável jornada de volta à civilização, em uma amizade marcada por peidos, ereções e assuntos desconfortáveis, como o ato de se masturbar pensando na mãe do outro. Mas esse é o pano de fundo para uma reflexão mais profunda sobre identidade, desejos reprimidos e realização.

Portanto, mesmo que você não simpatize com esse tipo de humor esdrúxulo (nem os Daniels gostam), é preciso reconhecer que o roteiro usa criativamente os peidos como uma alegoria para o que reprimimos em nosso interior, tornando-nos infelizes. Mais do que isso, Swiss Army Man corre riscos para abordar temas difíceis sob uma nova perspectiva.

A alegoria de Swiss Army Man.

Primeiro, o que é alegoria?

Lit Obra de ficção que apresenta ideias com sentido figurado para simbolizar outras.

Lit, Ret Figura de retórica que consiste no uso de várias metáforas consecutivas, exprimindo ideia diferente daquela que se enuncia.1

O Hank do início do filme é um jovem insatisfeito e reprimido. Aos poucos descobrimos que ele é bastante solitário, tem um relacionamento destrutivo com seu pai, esconde uma admiração platônica por Sarah, uma garota que só vê no ônibus, e essa é sua vida. Por isso ele fugiu, dando origem ao incidente que abre a narrativa.

Então, com a corda no pescoço, ele tem um flashback dessa garota no ônibus. Flashbacks são muito importantes na evolução dos caracteres de Swiss Army Man, não só porque eles quase morrem algumas vezes, mas porque indicam mudanças drásticas em suas psiques.

Hank: I had always hoped that right before I die my life would flash before my eyes and I would see wonderful things. […] But as I was hanging up there I didn’t really see much of anything.

Entrando no campo da Psicologia, Hank nesse mesmo instante vislumbra um cadáver jogado na praia. Esse corpo é um Morto Multiuso ou um Homem Canivete (minhas versões da tradução), com funções como peido jet ski, boca metralhadora e dedos isqueiros. Porém, o que mais se destaca nele é o desconhecimento sobre tudo o que existe.

Manny precisa aprender com Hank o que é vida, fezes, morte, masturbação, amor etc., o que leva a algumas sacadas espirituosas de ambas as partes. Nesse sentido, Manny é uma manifestação do Id, a instância psicológica menos controlada e mais ingênua do inconsciente, segundo Sigmund Freud. “O Id é o reservatório da libido, visto como fonte e quantidade de energia colocada à disposição dos instintos e, mais particularmente, do instinto sexual.2

Isso o transforma no completo oposto de Hank. Enquanto este é completamente reservado, o outro não tem freios. Enquanto um se vê como inútil, o outro é cheio de recursos. Enquanto um sequer consegue pronunciar a palavra “peido” a princípio, o outro dá vazão a tudo o que lhe é natural. Manny, portanto, é figurativamente o Id morto de Hank que espera ser recuperado.

Mas Swiss Army Man não é só peidos.

A relação que se desenvolve entre os dois personagens leva o espectador a caminhos imprevisíveis e abertos a interpretações. O roteiro escrito pelos Daniels tem momentos de grande candura, mas o maior crédito aqui é ao elenco por transmitir emoções com sinceridade.

Até então só vira Daniel Radcliffe na série A Young Doctor’s Notebook, mas já nutria admiração por Paul Dano nos seus papéis em Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris), Sangue Negro (There Will Be Blood, de Paul Thomas Anderson) e Os Suspeitos (Prisoners, de Denis Villeneuve). Os dois estão excelentes em Swiss Army Man, um filme que demanda uma forte carga emocional nos momentos sérios e um considerável esforço físico dos atores.

“Paul’s the kind of actor whose idea of rehearsal is to discuss and discuss and reread the script and talk about backstory and try to understand the mechanics of the movie through and through. It wasn’t until the first day of shooting that Paul ever went 100%. And it was so fun to witness! To say “action” and watch a scene and see it pour out of him…” (Daniel Scheinert – Creative Screenwriting)

Esse comprometimento com os conflitos internos dos personagens é o que faz a história transcender seu besteirol. Por exemplo, nunca vemos Hank sorrir de verdade, até a primeira vez em que Manny diz que ele está bonito vestido de Sarah.

Hank: Do you have any idea what people back at home would think if they saw me dressed like this?

Eis aí o primeiro passo para a redescoberta de Hank – e a sua primeira aceitação. Por isso há indícios o bastante para apontar Swiss Army Man como um filme sobre a identidade de gênero. Hank enquanto Sarah é muito mais feliz e livre. Ademais, assim como Manny tem utilidades práticas, seu novo amigo consegue liberar todo o potencial criativo em seu interior, capaz de reproduzir cenários nos mínimos detalhes com apenas lixo.

Lixo, por sinal, tem um papel proeminente na história, porque representa tudo aquilo que é rejeitado pela sociedade, desde objetos a mortos. Manny, como defunto, é jogado fora; Hank, por ninguém realmente amá-lo ou aceitá-lo sempre esteve fora. Mas por meio dessa amizade eles encontram força para se reinventar e criar beleza onde não se via, como na belíssima sequência da recriação do ônibus.

No longa há vários outros momentos marcantes e divertidos, porque sempre que Manny ou Hank acham um novo talento há montagens rápidas em que os vemos em ação. Essas montagens são acompanhadas de uma das trilhas sonoras mais inventivas que já ouvi, pois além de intensificar a emoção, as letras referem-se aos pensamentos dos personagens e a como eles percebem o que está acontecendo. Preste atenção na legenda da cena a seguir.

Recordemos que tudo isso acontece no caminho de volta para casa. Aí chego a um problema pessoal com o filme, porque não consigo imaginar um final plenamente satisfatório para a história.

Quando a alegoria encontra a realidade.

Assim que Hank descobre estar perto de casa, ele consulta o celular para ver se há sinal de comunicação. É uma cena breve, mas triste: no caixa de mensagem só existem spams e um cartão automático de aniversário, mesmo ele estando desaparecido há muito tempo. Ou seja, o mundo não se importa com o seu regresso.

E o retorno é mais difícil porque, num desses episódios em que quase morre, ele tem um segundo flashback. Desta vez, é um novo Hank, que ele ainda tem vergonha de mostrar para a sociedade.

Hank: I had always hoped that right before I die my life would flash before my eyes and I would see wonderful things.

Não resta coisa alguma para ele fora da relação com Manny, pois é um mundo onde as pessoas precisam segurar seus peidos (alegoricamente e literalmente falando). Mesmo a paixão por Sarah ao vir à luz do dia soa mais como uma aspiração de vida do que amor verdadeiro.

Hank: I’m sorry. You just seemed really happy, and I wasn’t.

Logo, saímos da alegoria anterior para voltar à civilização, concluindo o arco da ação. Porém, ainda falta concluir o arco do personagem. Por isso há uma segunda alegoria nas últimas cenas, tratando da libertação final de Hank. Não digo que seja um final ruim, até porque a realidade rompe a beleza de toda metáfora ou alegoria. Esse é o problema do mundo.

Manny: Maybe we’re all just ugly, dying sacks of shit, and maybe all it’ll take is one person to just be okay with that, and then the whole world will be dancing and singing and farting, and everyone will feel a little bit less alone.


Ficha técnica:
Título: Um Cadáver para Sobreviver / Swiss Army Man;
Direção: Daniel Kwan e Daniel Scheinert;
Elenco: Paul Dano, Daniel Radcliffe, Mary Elizabeth Winstead…;
Roteiro: John Daniel Kwan e Daniel Scheinert;
Cinematografia: Larkin Seiple;
Edição: Matthew Hannam;
Música: Andy Hull e Robert MacDowell;
Produção: Blackbird, Cold Iron Pictures, Tadmor;
Ano: 2016;
País: Estados Unidos;
Gênero: Drama, Comédia, Musical.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *