Não tenho a eloquência de Haroldo de Campos, a fama de Caetano Veloso ou a intimidade de Alice Ruiz S para falar de Paulo de Leminski, o que posso é tentar o meu melhor.

Lembro-me de 2013, quando ainda trabalhava como vendedor em uma livraria. Muita gente acha que ser livreiro é fantástico, que se é pago para ficar lendo e falar sobre seus livros favoritos o dia todo. Nada disso! Você não imagina a tristeza que era ter de vender Cinquenta tons de cinza com um sorriso no rosto…

toda-poesia-paulo-leminski-companhia-das-letrasEntão um novo fenômeno literário tomou não só as livrarias e os livreiros-poetas iguais a mim de surpresa, como todo o mercado editorial. Nas palavras de José Miguel Wisnik: distraidamente, Toda Poesia venceu o topo dos mais vendidos tão logo foi lançado. Tudo nele parecia predestinado ao sucesso. A capa vistosa, a excelente editoração, uma distribuição de peso e a assinatura de um dos nomes mais conhecidos da nossa literatura; exceto, é claro, que “poesia não vende”.

Mas eu e mais de 20 mil leitores entramos no embalo para finalmente ler os versos de Paulo Leminski (1944–1989) na íntegra. Até aí apareciam pingados, mas certeiros, porque Leminski é inevitável na cultura brasileira. É raro alguém ter escapado à flechada de poemas como:

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

Ou:

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

E o que Toda Poesia oferece de novo para nós leitores? Primeiro, a Companhia das Letras deu uma aula de como se montar uma antologia poética. As interferências de explicações ou textos dissertativos são mais reservadas ao final da obra, trazendo no meio apenas uma breve contextualização de cada livro compilado. Isso evita distrações para a poesia em si e até os borrões que separam cada poema são discretos e artísticos.

A partir daí brota a leveza dos versos de Leminski. Seu tom corriqueiro, chegando a ser bastante humorístico em exemplos como o que passou passou?, mostra que a poesia pode ser tão espontânea e despretensiosa quanto um papo de bar.

– que tudo se foda,
disse ela,
e se fodeu toda

Só não confunda essa naturalidade com descaso. Complementando o comentário de Leyla Perrone-Moisés de que “a forma breve não é um valor em si, o breve pode ser apenas pouco”, a brevidade de Leminski é agudeza. Ele era um profundo conhecedor da linguagem e da literatura, como se vê nos poemas limites ao léu, ouverture la vie en close, o assassino era o escriba e em tantos outros, portanto era capaz de afiar sua escrita para que restasse a forma mínima e mais incisiva de seus versos.

Talvez o que o destaque tanto seja justamente a convicção de que

CHUTES DE POETA
NÃO LEVAM PERIGO À META

e por isso não se preocupava com grandes epifanias nem exageros de estilo. Mesmo sendo um dos grandes experimentadores da literatura brasileira, sua experimentação era pênalti: se acertasse, beleza; se não, paciência. Segue o jogo.

Ah, Leminski também dava bolas fora. Às vezes ele mesmo cometia o erro de quem quer imitá-lo somente na forma e “sempre acha o máximo” qualquer amontoado de sons, isto é, dançar tanto com as palavras que se esquece do resto do salão. Veja-se este exemplo:

amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o

Nele, os sons se envolvem de tal forma que parecem algo interessante, mas “amei em cheio” não combina com os dois “meio” a seguir, porque um deles é negativo. Uma coisa anula a outra. Contudo, esses casos em que o estilo precede a substância são esporádicos, pois no geral o que se vê são belezas tais:

nada foi
feito o sonhado
mas foi bem-vindo
feito tudo
fosse lindo

Assim, quanto mais sintético, mais Leminski exerce seu poder sobre a língua para extrair imagens poéticas com grande eufonia:

a noite – enorme
tudo dorme
menos teu nome

Por fazer tanto com tão pouco, Leminski requer atenção especial do leitor. É tentador correr os olhos pelas páginas, indo de poema a poema como quem devora o almoço, atrasado. Não. É preciso resistir. Pausar. Saborear. Perceber que com o passar dos anos e a evolução da cirrose do autor, seus versos ganham em meditação:

minha memória evapore
feito a água
de uma lágrima

minha lembrança se vá
sem deixar lembrança alguma
em seu devido lugar

se um dia eu esquecer
que você nunca me esquecerá

kami-quase-paulo-leminski-companhia-das-letrasEsse é Paulo Leminski que Toda Poesia revela. Um homem inteligentíssimo e um poeta com pleno conhecimento de seu ofício, que mergulhou no mundo e trouxe o essencial à superfície para que pudéssemos reparar. Se ele fez poesia parecer fácil, é porque esse gatuno sabia de tudo.

Nada tenho.
Nada me pode ser tirado.
Eu sou o ex-estranho,
o que veio sem ser chamado
e, gato se foi
sem fazer nenhum ruído.

Toda Poesia, de Paulo Leminski, publicado pela editora Companhia das Letras, 424 páginas, com apresentação de Alice Ruiz S e formidável projeto gráfico de Elisa von Randow.

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