Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar

As atuações dramáticas Cecilia Roth, Penélope Cruz e Marisa Paredes oferecem um nível de sensibilidade como raramente se vê, e a direção e o roteiro inspirados de Almodóvar colocam Todo Sobre Mi Madre no topo dos melhores filmes do diretor e do cinema hispânico em geral.

Pontos principais:

  1. Ao lado de Hable con Ella, é um dos melhores filmes do diretor;
  2. Roteiro e trilha sonora absolutamente comoventes;
  3. Atuações únicas por parte do trio principal;
  4. Ganhou Oscar, Globo de Ouro e BAFTA por melhor filme estrangeiro; ganhou os prêmios de melhor diretor no BAFTA e em Cannes; angariou alguns Goya e mais um bocado de premiações ao redor do globo.

“Para mim, o cinema não é uma triste imitação da vida. O cinema é um aperfeiçoamento para a vida.” – François Truffaut.

Essa frase ocorreu-me ao rever a cena em que a protagonista, Manuela (Roth), simula uma conversa entre médicos e familiares de um paciente recém falecido para a liberação dos órgãos à doação. No entanto, para Almodóvar, diretor de filmes como Fale com Ela (Hable con Ella) e Carne Trêmula (Carne Trémula), o cinema é um triste aperfeiçoamento para a vida.

Melhoramento porque na ficção ele transita em vias de grandes sofrimentos como que para mostrar à realidade o que é capaz de ser suportado. E porque dificilmente Tudo Sobre Minha Mãe possa chamar-se de imitação. A trama passa por três mortes, um nascimento, uma busca, uma enfermeira que ocupa o lugar de uma atriz, uma atriz conhecida às voltas com uma iniciante, um travesti prostituído que se torna auxiliar dessa atriz conhecida, uma freira que engravida, uma falsificadora de Chagall… E passa por tudo isso enquanto trabalha com temas tais: transplante de órgãos, HIV, travestismo, valores familiares; e também faz referências a obras como a peça Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire), de Tennessee Williams, e os filmes A Malvada (All About Eve, de quem deve a inspiração para o título), de Joseph L. Mankiewicz, e Noite de Estreia (Opening Night), de John Cassavetes.

Mas nenhuma introdução de Tudo Sobre é completa sem dizer que este é um filme sobre mulheres, melhor, sobre as forças e fraquezas das mulheres, mesmo daquelas que se fizeram por opção. Raramente vemos personagens masculinos; o principal deles não dura mais do que doze minutos em tela e os demais tem falas de uma ou duas linhas. E pode-se inferir das referências que esta é uma obra madura sobre mulheres, com caracteres completos e consciências complexas, ao contrário das mais recentes representações femininas nos cinemas.

Manuela: As mulheres fazemos qualquer coisa para não estarmos a sós.
Rosa (Cruz): As mulheres somos mais tolerantes, mas isso é bom.
Manuela: Somos tontas. E um pouco lésbicas.

Tudo Sobre é um drama muito denso e muito próximo dos personagens. A câmera poucas vezes se afasta para ver o quadro geral, ela se concentra em planos médios e primeiros planos para captar toda a emoção da história. E haja comoção! O choro é certo em pelo menos três cenas diferentes, graças principalmente aos acontecimentos ao longo do enredo e às atuações sensibilíssimas de Roth e Cruz. Há um diálogo entre as duas no qual sentimos que o pranto deixou de ser interpretação e tornou-se real, naquele momento, durante a gravação.

Marisa Paredes e Cecilia Roth.
Marisa Paredes e Cecilia Roth.
Cecilia Roth e Penélope Cruz.
Cecilia Roth e Penélope Cruz.

Contudo, Almodóvar encontra tempo para instantes de grande beleza, ou insere movimentos de câmera como forma de mensagem, ao invés de mostrar as imagens em si. Por exemplo, a cena do “carrossel da prostituição” consegue extrair um conteúdo imagético primoroso de um ambiente pútrido.

O belo e louco "carrossel".
O belo e louco “carrossel”.

Cena funeral Todo sobre mi madre

Conforme dito acima, a história tem um gosto bastante amargo para o espectador. Mas o diretor se vale de distrações para toda essa tragédia, na tentativa de encontrar certo equilíbrio emocional. Então entra o alívio cômico por parte de Agrado (Antonia San Juan), com seu humor em algumas ocasiões muito sutil (“Como eu poderia ter um Chanel verdadeiro com tanta pobreza neste mundo?”), porém com frequência chega a ser grosseiro ante a repetição de piadas sobre boquete. Isso, no entanto, é entendível. O drama é tão forte que um humor sutil não daria conta de equilibrá-lo, daí o exagero. E o fim ainda lega uma nota de esperança.

Mais do que isso, o ritmo acelerado dos acontecimentos não permite que as pessoas se detenham em um determinado sofrimento por um período prolongado. A sucessão de novos fatos e novas relações injeta vida extra à narrativa. Para esse fim existem muitos quadros de transição temporal espalhados no decorrer do filme e são todos belíssimos.

Tempo Todo sobre mi madre

E Almodóvar várias vezes reforça a ideia de que se trata de uma obra de arte, ou seja, de uma ficção. Esse reforço vem tanto das características do texto, de poder ser visto como uma releitura ou paródia de suas referências, quanto das escolhas do diretor em uma tomada específica ou na decoração dos ambientes, a desviarem a atenção da ação ao redor para si.

Obs.: esta é uma obra de ficção.
Obs.: esta é uma obra de ficção.
Típica decoração de ambientes à Almodóvar.
Típica decoração de ambientes à Almodóvar.

Por fim, ele ainda encerra o filme com a imagem de uma cortina abaixada (o fim do espetáculo) e com a dedicatória a atrizes, a mulheres, a mulheres atrizes, a mães…

Dedicatória Todo sobre mi madre

Além da direção e das atuações, a fotografia de Affonso Beato, a trilha sonora de Alberto Iglesias e o roteiro do próprio Almodóvar são excelentes. Estas falas são emocionantes:

Huma Rojo (Paredes): O êxito não tem sabor nem odor. E quando te acostumas é como se não existira.

Esteban (Eloy Azorín): Ontem à noite mamãe me mostrou uma foto. Faltava uma metade. Não quis dizer, mas à minha vida falta esse mesmo pedaço.

Ficha técnica:
Título: Tudo Sobre Minha Mãe / All About My Mother / Todo Sobre Mi Madre;
Direção: Pedro Almodóvar;
Elenco: Cecilia Roth, Penélope Cruz, Marisa Paredes, Antonia San Juan, Rosa Maria Sardá, Fernando Fernán Gomez, Toni Cantó, Eloy Azorín…;
Roteiro: Pedro Almodóvar;
Cinematografia: Affonso Beato;
Edição: José Salcedo;
Produção: El Deseo Produtora;
Ano: 1999;
País: Espanha, França;
Gênero: Drama.

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