Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi

Em Ugetsu Monogatari a realidade e a fantasia não se opõem; pelo contrário, coabitam o mesmo espaço e se unem diante das lentes poéticas de Kenji Mizoguchi.

Pontos principais:

  1. É marco do cinema japonês e, portanto, do cinema mundial;
  2. A direção fluida confere ao filme um caráter onírico;
  3. A fotografia de Kazuo Miyagawa é impecável;
  4. As atuações – tanto cômicas quanto dramáticas – são excelentes;
  5. A história reserva um final profundamente comovente.

O diretor: Kenji Mizoguchi (1898-1956) foi, ao lado de Akira Kurosawa e Yasujirô Ozu, um dos maiores realizadores japoneses e um dos responsáveis por exportar o cinema nipônico ao Ocidente. Apesar de seus filmes representarem diversos períodos da História de seu país, Mizoguchi sempre trouxe para as telas personagens femininas fortes e complexas, posto que defensor das causas femininas. Sua filmografia inclui títulos como O Intendente Sansho (Sansho, the Baliff / Sanshô Dayû) e Crisântemos Tardios (The Story of the Last Chrysanthemums / Zangiku Monogatari).

A narrativa: Ugetsu passa-se no século XVI, período de intensos conflitos militares no Japão, conhecido como Sengoku. Narra as desventuras de quatro personagens, dois irmãos e suas esposas, em meio às batalhas pessoais entre as vontades de cada um e os acasos de uma época difícil. Ambição e profanação são duas palavras chaves ao descrever este filme, pois foram características do período retratado. O roteiro foi inspirado por uma mistura dos contos fantásticos Ugetsu Monogatari (algo como Contos da Lua e da Chuva), de Ueda Akinari, com um pouco de Guy de Maupassant.

O filme: A fluidez marca o filme desde a cena de abertura, na qual temos uma panorâmica com movimento de câmera para a esquerda, ou pan, devagar até chegar à figura dos protagonistas, Genjurô e Miyagi. Mizoguchi transformava a câmera em um pincel de Kanji que lenta e poeticamente traça sua mensagem.

Vejamos a seguinte cena: Genjurô (Masayuki Mori), um artesão, conversa com sua esposa (Kinuyo Tanaka) e traz seu filho ao colo. Ele está empolgado com a recente oportunidade de vender seus potes a um exército que se alocou próximo do povoado. Levanta-se e vai sentar-se às costas de Miyagi, enquadrado pelos potes, como demonstração sutil de que a crescente ambição começa a separá-lo de sua família. Logo aparece Ohama (Mitsuko Mito), recepcionada por Genjurô, mas este é interrompido por um pan à esquerda enquanto Ohama caminha para buscar seu marido, Tobei (Eitarô Ozawa), que espreitava lá fora. Então o foco volta a ser o centro da sala, à direita.

Tudo isso ocorre sem cortes – trata-se de uma longa tomada – e sem chamar atenção para os movimentos da câmera devido à excelente orquestração das ações em cena:

Ugetsu Monogatari (fluidity)

Ainda outro exemplo: a cena abre com um amplo plano de um mercado público. Novamente vemos um pan à esquerda, onde um artista de rua executa seu número de equilíbrio, e mais à esquerda, sob o arco. Então há uma aproximação (dolly in) e entre a multidão identificamos enfim os protagonistas. Uma sequência como essa não mostra somente o talento técnico do diretor, mostra também o zelo histórico-realista com que Mizoguchi apresenta sua mise-en-scène. Há um imenso cuidado no posicionamento dos extras, na coreografia das ações, no vestuário, nos objetos e até na escolha dos instrumentos para a trilha sonora. Genjurô fabrica seus potes exatamente como alguém o faria no século XVI.

A câmera vai sempre em direção à esquerda.
A câmera vai sempre em direção à esquerda.

Mas esse cuidado com os detalhes da realidade não omite a verdadeira vocação de Ugetsu – a fantasia. Percebemos ao que o filme se encaminha através da belíssima imagem de um barco em meio à neblina; acabamos de entrar em um mundo fantástico, em um sonho que desenvolverá a história.

Na cidade onde Genjurô, Tobei e Ohama vão vender os potes o primeiro é atraído pela pálida e quase fantasmagórica vista da Senhorita Wakasa (Machiko Kyô, que trabalhou com outros dois diretores clássicos do Japão: com Kurosawa, em Rashomon e com Ozu em Ervas Flutuantes (Floating Weeds / Ukigusa)). Encaminhamo-nos para a segunda reviravolta do roteiro.

Genjurô é trazido à casa de Wakasa, em companhia de sua serva, que são as duas últimas sobreviventes do massacre de uma nobre família. Sua chegada é mostrada através de sombras no chão, ou seja, ele está prestes a adentrar em um cenário irreal. Filmar as sombras como ilustração de irrealidade ou fantasmagoria é um recurso bastante usado, presente já em O Vampiro (Vampyr), dirigido por Carl T. Dreyer em 1932.

Genjurô entra em um mundo de sombras.
Genjurô entra em um mundo de sombras.

Lá acontecem fatos estranhos: velas ascendem-se do nada, sombras se projetam assustadoramente, armaduras cantam com as vozes de seus donos mortos… Porém isso não parece importar ao artesão, que de tão embriagado pela sua ambição não consegue reparar nas profanações cometidas. Ele chega a ter relações sexuais em uma fonte de água quente, local considerado sagrado pela cultura japonesa de então.

Depois cada personagem tem de lutar com seu acaso e seu ocaso; revelar mais do que isso seria estragar a surpresa e a capacidade que o filme tem de comover o espectador, especialmente na sequência em que Genjurô retorna a casa, perto do fim. Esta é uma das cenas mais delicadamente tristes ou tristemente delicadas de todo o cinema. É algo que não pode ser esquecido.

No mais, ficam aqui alguns outros destaques de Ugetsu. A belíssima fotografia e iluminação feitas por Miyagawa, como nesta cena que traduz em imagens a sensação do orgasmo masculino:

Ugetsu Monogatari 2

A delicadeza dos insert shots, planos de inserção, tão bem empregados por Mizoguchi. Para mostrar que uma determinada personagem é abusada sexualmente ele não mostra o ato em si, limita-se a apenas a exibir suas sandálias abandonadas na areia, o que se revela tão emocionante quanto:

Ugetsu Monogatari 3

E ainda a duplicação de cenas para enfatizar algo, qual a presença e a ausência de Miyagi em dois momentos diferentes:

Ugetsu Monogatari (absence)

Dito isso, concluímos que é um filme capaz de maravilhar aqueles que buscam técnica e conteúdo. É uma obra multifacetada, parte drama histórico, parte fantasia fantasmagórica, e consegue encontrar espaço para certo alívio cômico. Mais do que entreter, Ugetsu encanta e move.

Ficha técnica:
Título: Contos da Lua Vaga / Ugetsu Monogatari;
Direção: Kenji Mizoguchi;
Elenco: Masayuki Mori, Kinuyo Tanaka, Mitsuko Mito, Eitarô Ozawa, Machiko Kyô…;
Roteiro: Matsutarô Kawaguchi, Kyûchi Tsuji, Akinari Ueda, Yoshikata Yoda;
Cinematografia: Kazuo Miyagawa;
Edição: Mitsuzô Miyata;
Música: Fumio Hayasaka;
Produção: Masaichi Nagata;
Ano: 1953;
País: Japão;
Gênero: Drama, Fantasia.

2 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Rapaz…acabei de ver filme e adentrei na busca por críticas. E…que inveja!!! Apesar de ser apaixonado por cinema (chego a ver 10, 12 filmes por semana) aqui compreendo como meu olhar é raso, interpretativamente falando. Achei a primeira metade do filme um grande tédio e aqui, ao ler sua crítica, percebo como deixei de me surpreender e encantar, como na passagem do barco, a entrada no “mundo de sombras”, etc. Ah, quero desenvolver esse olhar! hauahuahu Parabéns!

    1. Olá, Pedro!

      Muito obrigado pelo comentário. Não me estranha que muito do filme passe desapercebido, em se tratar de uma obra de Mizoguchi. Parece-me que a intenção do diretor era justamente não chamar atenção para nada além da história. Deve-me ter passado muitas coisas em branco também.

      E, mais importante do que ver um filme, é revê-lo, nem que seja em pensamento. Do mesmo modo que Schopenhauer afirma que não se deve ler demasiado, mas sempre pensar sobre o que se leu, afirmo para os filmes: toda obra precisa de um tempo para ser absorvida, tempo este que excede a duração da própria obra.

      Creio que possa ser-te de alguma ajuda as seguintes postagens aqui do Clássicos Universais: As direções na direção – Parte I e As direções na direção – Parte II.

      Um abraço!

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