Ulisses, de James Joyce (Parte 1)

Hoje – 16 de junho – em várias partes do mundo celebra-se o Bloomsday, ou Dia de Bloom. Para comemorar a data veremos aqui um pouco de por que o personagem que lhe deu o nome, Leopold Bloom, e seu criador, James Joyce, serem caros à cultura a ponto de ganharem um feriado só para si.

Introdução:

Para começo de conversa, recomendo a leitura desta postagem.

Sem rodeios, Ulisses foi escrito para ser e se tornou uma revolução literária. Muito do que lemos em matéria de literatura contemporânea deve-se ao trabalho minucioso de Joyce. Logo abaixo esta revolução está separada em três categorias: forma, conteúdo e influência. Antes disso vamos dar uma olhada em quem foi James Joyce e em quais condições ele escreveu sua obra-prima.

Ele é o escritor mais irlandês de que se tem notícia, tanto por ter nascido na Ilha Esmeralda quanto por continuar a retratar seus pormenores mesmo quando distante dela. Nascido em Dublin no ano de 1882, permaneceu ligado à cidade através das décadas por meio de seus escritos. Além de irlandês, era inteligentíssimo e talvez, segundo Carl Jung, esquizofrênico.

São ou não, tinha um enorme talento para a linguagem e para os idiomas, algo muito útil na tarefa de um escritor. Boa parte de seu aprendizado em línguas veio da necessidade – morou bastante tempo em Trieste, Zurique e Paris – e dos contatos com outras grandes figuras literárias de sua época, como W. B Yeats, Ezra Pound, Italo Svevo e Samuel Beckett.

Em 1914 começou Ulysses, que só terminaria de escrever após 7 anos e a mudança entre dois países (Suíça e França). Inicialmente controversa, a obra ganhou o respeito do público e da crítica graças ao empenho de autores da fama de T. S. Eliot e Pound. E quem ousaria criticar um monumento de quase 1000 páginas que revolucionou a escrita literária? Bem, é certo que houve muitas repreensões e opiniões contrárias – e ainda há. Até pela sua dificuldade de leitura este livro não é para qualquer um, porém nada derrubará seu status de marco. Vejamos por quê.

1. A forma:

Melhor seria dizer “as formas”, porque Ulisses é um verdadeiro compêndio de técnicas literárias. São 18 capítulos, cada um escrito de uma maneira diferente e muitas vezes composto de uma confluência de estilos distintos. Poucos livros requerem tanta atenção do leitor, pois as pistas de como se o ler mudam de uma parte para outra. Por isso é importante termos em mãos uma edição farta em notas de esclarecimento, já que precisaremos delas.

Aliás, precisaremos ler o texto diversas vezes para entendê-lo, e em cada leitura descobriremos algo novo. Ulisses não é um livro para um final de semana, é para se acompanhar por toda a vida e ser revisitado constantemente. A sua extensão não é o problema, afinal a geração mais recente está acostumada a publicações com 500 ou 600 páginas; a grande dificuldade desta obra está no cuidado excessivo sob o qual foi composta. James Joyce não é J. K. Rowling, aqui todas as palavras foram medidas e costumam ter mais do que um único sentido.

Além dessa necessidade constante de atenção, a classificação como “obra impenetrável” afasta muitos possíveis leitores. Em nenhum aspecto esta obra é impenetrável; é difícil como o são todos os bons livros por trazerem algo novo ao nosso entendimento, porém não chega a ser impossível de a compreendermos. Ela é um retrato da vida e é como a vida: quanto mais a vivemos, mais podemos entendê-la.

Tomemos o título como ilustração. Ulisses remete a Odisseu, o herói da Odisseia (Odyssey / Odysseia), de Homero. Joyce constrói seu protagonista, Leopold Bloom, em torno desse mito e em um só dia, 16 de junho. Bloom passará por uma releitura de episódios tais a descida ao Hades e a caverna do Ciclope, mas quem desconhece a epopeia grega não perderá a compreensão do que acontece aqui. O conhecimento da Odisseia apenas auxilia, do mesmo modo que a leitura dela é auxiliada por Ulisses.

Outra característica importante da obra é a dilatação temporal por meio do fluxo de pensamento (lembremos que tudo ocorre em um dia). Boa parte da ação se dá dentro da mente dos três personagens de destaque: Leopold, Molly Bloom e Stephen Dedalus. Novamente impõe-se uma dificuldade ao leitor. Já é difícil de acompanharmos os nossos pensamentos, quanto mais os de outra pessoa. No entanto, depois do estranhamento inicial, acostumamo-nos ao processo – em parte facilitado pelo ritmo exclusivo que Joyce emprega para cada personagem.

E também há um grande número de estrangeirismos, trocadilhos e formas de linguagem complexas. Para termos ideia, de um total de 265.000 palavras o autor usou um léxico de 30.000 palavras diferentes. E alguns desses vocábulos e algumas dessas expressões são verdadeiros dilemas para os tradutores.

Por falar em tradução, vale comentar as duas opções que os brasileiros temos. Há a versão de Antônio Houaiss, da década de 60, e a de Bernardina da Silva Pinheiro, mais atual. Enquanto Houaiss prezou pela musicalidade do texto, empregou um vocabulário bastante erudito e mais complicado de seguir. Já Bernardina se serviu de uma linguagem mais simples, contudo um pouco mais distante da música joyceana. Para os iniciantes a tradução dela, publicada pela Editora Objetiva (selo Alfaguara), e acompanhada por uma fartura de notas e mapas é uma boa pedida.

Continua aqui: Ulisses, de James Joyce (Parte 2)

2 comentários Adicione o seu

  1. Leonardo disse:

    Muito bem observado que “A sua extensão não é o problema, afinal a geração mais recente está acostumada a publicações com 500 ou 600 páginas” É algo que muita gente ainda não percebe. Mas também é preciso notar que são Apenas 18 capitulos, alguns passam de 60 paginas ;O
    Quando li, dedicava duas horas matinais apenas para a leitura pois parar no meio de um capítulo é como dormir no meio do labirinto ;o

    Para compreensão do ultimo capítulo recomendo o filme Bloom – onde eles fizeram uma adaptação fantastica deste trecho e ajuda a entender como funciona a mecânica do texto ;D

    1. É verdade, é verdade. Aliás, meus maiores problemas estavam nos maiores capítulos. Li os capítulos menores algumas vezes, mas o Ulisses inteiro em apenas uma ocasião que me tomou quase 6 meses. E que bom ter encontrado alguém que também o leu. É claro que para mim valeu a pena todo o sacrifício. É a melhor aula de escrita que um escritor pode ter.
      E obrigado pela recomendação do filme. Só vi até então o Ulysses (de 1967). Não é um filme lá muito bom, serviu somente para me mostrar um pouco do humor do texto que eu deixara passar. Abraço!

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