Ulisses, de James Joyce (Parte 2)

Em continuação à introdução ao Ulisses e apresentação da forma do livro, segue a segunda parte da resenha, agora sobre o conteúdo e as influências ocasionadas na literatura e nos leitores.

Primeira parte: Ulisses, de James Joyce (Parte 1)

Lê também: As batalhas da literatura.

2. O conteúdo:

Como descrito, Ulisses acompanha os três personagens principais – e seus encontros com mais de uma centena de secundários – a repetirem os passos de Odisseu, Penélope e Telêmaco, desta vez em uma Dublin do início do século XX. Portanto, é uma paródia no sentido mais amplo da palavra, técnica esta muito usada no modernismo. Paródia vem de para- (contra) –ode (ode, canção), da tradição literária grega, na qual era empregada para transformar o sublime dos poemas em ridículo.

Os escritores modernistas aproveitaram-se desse recurso não para ridicularizar, mas para transportar as mesmas histórias para outros contextos; para ir de encontro ao divino, ao sublime, e transformá-lo em humano. Daí surge a caracterização de Leopold Bloom como um anti-herói, posto que simplesmente humano. Apesar de passar pelas mesmas provações, ele não tem as faculdades heroicas de Odisseu nem se serve do auxilio dos deuses e por isso deve enfrentar as adversidades com as próprias forças.

E, do mesmo modo que há uma porção de herói em todo ‘anti-herói’, Leopold consegue superar suas limitações e enfrenta várias situações complicadas com uma sabedoria por vezes exemplar. Tem seus defeitos, é claro: demonstra um pouco de gabolice e frouxidão, mas suas qualidades são dignas de se ressaltar, em especial se levarmos em consideração a consciência média de um cidadão de há quase cem anos.

Bloom tem um pai suicida, um filho morto, um chefe que não o prestigia e uma esposa que o trai. Contudo, inclusive diante das situações de confronto direto, apresenta uma plácida serenidade. Quando ele se dirige com outros senhores ao enterro de um conhecido, no sexto capítulo, ouve o repúdio de um de seus colegas a respeito do suicídio e nada menciona, por mais que o assunto o doa.

E também resiste às diversas indiretas referentes às relações extraconjugais de sua esposa sem se mostrar por isso enfurecido. No fim do dia ele chega a ponderar: “Assassinato, nunca, visto que dois erros não tornam um certo. Duelo por combate, não. Divórcio, agora não” (na tradução de Bernardina S. Pinheiro, Editora Objetiva). É sensato, até porque tem sua cota de deslizes. E então ele pede a Molly que lhe traga café da cama na manhã seguinte, fato que não ocorria desde a morte de seu filho, há onze anos. Com paciência, com inteligência e com pequenas atitudes ele mantém o controle sobre sua vida e o equilíbrio de sua consciência. Bloom é estoico a ponto de suportar um sabonete no bolso traseiro que o incomoda ao longo do dia.

A inversão, então, do divino em humano é completa: Molly não tem a fidelidade de Penélope, mas seu marido opta por impor-se por meio de pequenas palavras, ao invés de vingar-se com sangue; Leopold não tem é um herói como Odisseu, mas tem a tenacidade e a sabedoria suficientes para enfrentar os obstáculos da vida; Stephen não mais um Telêmaco à procura de um pai, mas é visto com afeição paternal por Bloom.

E ao redor deles orbitam constelações de outros personagens, cada um com uma história própria, com personalidades diferentes e graus de familiaridade distintos. Eles reprisam fielmente a vida orgânica de uma cidade em todos os seus detalhes. Quem gosta do seriado Os Simpsons, no ar há mais de vinte anos, verá que boa parte de sua estrutura e de sua capacidade de criar novos fatos por tão longo período se deve a Ulisses e a seu amplo universo de caracteres. Nos romances citadinos o homem nunca é só, ele é definido por sua relação com os demais.

Por último, um conselho de como abordar este livro: com atenção, porém não tão seriamente. Um dos maiores riscos de saber a importância de uma obra é que, ao lê-la, pode-se perder a graça e o carisma da leitura. Mesmo os melhores livros podem se tornar aborrecidos se os encaramos com demasiada seriedade. Lembremo-nos de que o humor é parte natural da vida e, portanto, está também em Ulisses. Leiamos por prazer.

3. As influências:

James Joyce era muito consciente como artista. Desde a escritura de sua obra-prima ele soube da importância que esta teria em uma nova literatura. Em conversa com Arthur Power a ela se refere assim: “Quanto ao classicismo romântico que você tanto admira, Ulisses mudou tudo isso, pois nele eu abri um novo caminho e você vai ver que ele será seguido cada vez mais. De fato, a partir dele você pode datar uma nova orientação na literatura – o novo realismo, pois embora você critique Ulisses, contudo a única coisa que você tem que admitir que eu fiz foi liberar a literatura de seus grilhões antiquados. Você é evidentemente um tradicionalista intransigente, mas deve perceber que uma maneira nova de pensar e de escrever foi iniciada, e aqueles que não concordarem com ela serão deixados para trás” (tradução de B. S. P.).

Pareceria pedante, se não soubéssemos que é a verdade. De fato, Ulisses não provocou apenas um sem fim de adaptações, imitações, estudos, análises, comentários e até outras paródias – ele mudou a cara da literatura. Como exemplo, basta que pensemos em quantos livros lançados nos últimos 50 anos têm a narrativa desenvolvida na mente do personagem, ou a ela sujeita, e quantos não têm. E vejamos a questão da fragmentação temporal: quantos livros atuais se passam em um dia, uma noite, uma hora? Antes de Joyce, isso seria visto como um disparate, uma afronta à estética e ao leitor.

E se hoje isso é visto mesmo como um lugar comum na literatura, é porque Joyce provou que um único segundo na vida de um personagem pode ser interessante. Escreveu Schopenhauer a respeito disso em seu ensaio Sobre a erudição e os eruditos: “Como podemos supor, um bom cozinheiro pode dar gosto até a uma velha sola de sapato; da mesma maneira, um bom escritor pode tornar interessante mesmo o assunto mais árido” (traduzido por Pedro Süssekind, L&PM).

Ainda há o respaldo de grandes escritores, os quais em algum momento confessaram sua devoção a esta obra. T. S. Eliot, autor de A Terra Desolada (The Waste Land), que parodia poemas clássicos tal a Divina Comédia (Divine Comedy / Divina Commedia), de Dante Alighieri, pronunciou-se da seguinte maneira sobre Ulisses: “Este é um livro do qual todos somos devedores, e do qual nenhum de nós pode escapar”.

Já vimos os modos como James Joyce influenciou a literatura e os escritores, agora só nos falta vermos a forma com que ele mais influenciou a nós, os leitores. Dentre todas as inovações e aprofundamentos no ato de ler que Joyce nos imprimiu, a maior delas se refere ao fluxo de consciência. Percebemos enfim que existem muitos meios de compreensão além da frase tradicional; custa um pouco mais a nos habituarmos, é certo, mas nos permite leituras muito mais íntimas e complexas.

Quando mergulhamos da mente de Leopold, Molly e Stephen, aprofundamo-nos igualmente em nosso modo de pensar, ou seja, pela consciência dos personagens nos tornamos mais conscientes de nosso processo de pensar. De fato, Joyce é tão importante para a Psicologia – e talvez tão eficaz – quanto Freud. Este fez com que nos revelássemos a outro para que nos interpretasse, aquele fez com que interpretássemos a outro para que nos autorrevelássemos.

Para concluir, tenhamos em mente que nenhuma resenha literária será completa, especialmente neste caso. Nas palavras de Ítalo Calvino, em Por que ler os clássicos: “Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente a repele para longe” (tradução de Nilson Moulin para a Companhia das Letras). Cada leitor descobrirá novas características, novas passagens marcantes, novos significados, em suma, criará um novo livro para si. Essa foi uma das grandes contribuições de Joyce, compreender e divulgar que uma obra se faz metade pelo trabalho árduo do escritor, e metade pelo entendimento do leitor.

Sugestão:
Ulisses, Editora Objetiva, 2007, Tradução e Introdução de Bernardina da Silveira Pinheiro, 908 pág.

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4 comentários Adicione o seu

  1. otimo post…. melhor mesmo que algumas materias que li em revistas de literatura – seu texto tem gosto de encantamento por uma leitura recente. O conselho de evitar ler tão seriamente foi o melhor! Todo estudante de escola deveria se tocar disso antes de ler os “obrigatorios” como se fosse algo tão chato – afinal tem muito o que ser apreciado nestes livros.

    1. Obrigado, Leonardo. Estava realmente inspirado ao escrever. E olha que não foi uma leitura tão recente assim. Terminei de ler o Ulisses no ano passado, mas para fazer a postagem reuni um bocado de material a modo de refrescar a memória. Mais uma vez obrigado, e até breve!

  2. Marcos Paulo disse:

    Deixo a você meus mais sinceros parabéns repletos de admiração! Seu texto é fantástico! Eu divulgarei seu artigo, porque acredito que lendo-o, alguns possam despertar interesse em Joyce!

    1. Marcos, muito obrigado! Essa é a melhor recompensa pelo trabalho que dá escrever.
      Abraço!

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