Uma Confraria de tolos, de John Kennedy Toole

Uma confraria de tolos (A confederacy of dunces, escrito originalmente em 1969, porém publicado postumamente em 1980) perfaz, ao lado de The Neon Bible, toda a bibliografia do escritor americano John Kennedy Toole (1937–1969). O que Uma confraria de tolos tem de desconhecido no Brasil, tem de apelo crítico e popular em seu país de origem, inclusive com um Pulitzer na bagagem.

A história se passa na Nova Orleans dos anos sessenta, terra natal de Toole. Um narrador em terceira pessoa segue vários – e variados – personagens, com atenção especial para Ignatius J. Reilly, um homem já na casa dos trinta anos, mas que ainda vive com sua mãe, Irene. Ignatius proclama-se um defensor da “decência e do bom-gosto, da teologia e da geometria”, embora não faça muito mais do que parecer um cara obeso, desleixado, preguiçoso, punheteiro e antissocial.

Como um todo, a narrativa não se encaminha para um propósito definido. É antes uma série de incidentes entre essas criaturas extravagantes, cada uma com sua grande dose de loucura, que geram outros incidentes e se somam àqueles para culminar no incidente que encerra o livro. Entretanto, não pense o leitor que lhe faltará um clímax narrativo. Nas cem páginas finais a obra se recupera de certa sonolência e os problemas que surgem geram aquele anseio por uma resolução.

A primeira impressão que se tem com o livro é um ligeiro estranhamento. O tom, conquanto não ria abertamente dos personagens e de suas ações, deixa-nos de sobreaviso para não os tomarmos a sério. É como se esse narrador se abstivesse de emitir uma opinião e apenas deixasse os personagens serem ridículos por conta própria.

Como no caso das correspondências entre o protagonista e Myrna Minkoff, espécie de nêmesis intelectual de Ignatius e antiga colega de universidade. Sem tecer comentários sobre eles, limita-se a apresentar através das palavras deles todas as incongruências, toda a enfatuação e todas as paranoias desses dois seres. É o leitor quem intui que todas as menções a “mudar o mundo” ou “libertar a sociedade” são apenas uma tentativa de impressionar o outro, de subjugar a intelectualidade do outro.

E pode parecer que essas criaturas sejam caricaturais, mas são tão plausíveis quanto qualquer pessoa estranha que se encontre na vida real. Várias delas me lembraram de pessoas as quais conheci ou das quais ouvi falar. São exageradas, de fato, como são exagerados alguns indivíduos de nossa sociedade.

Um dos primeiros incidentes do livro faz com que Ignatius precise então trabalhar. O primeiro conflito é com sua mãe e isso servirá como pano de fundo para todos os atritos de sua longa e difícil relação com ela. Depois, uma série de outras pessoas cruzarão por sua vida, seus empregadores, os amigos de sua mãe e todo o tipo de gente que se poderia encontrar numa Nova Orleans da época, todos relacionados de alguma maneira. Aqui fica o destaque para a capacidade de Toole dar voz e pensamentos próprios a cada personagem diferente.

O que principalmente faz rir em Uma confraria de tolos é a mentalidade de seu protagonista. Ignatius considera-se intelectual, uma mente além de seu tempo, e impõe aos outros um rígido sistema moral e estético, tudo em nome “da decência e do bom-gosto, da teologia e da geometria”. Sim, ele mistura esses termos como lhe convém. E talvez seja ainda mais engraçado por entregar-se ao ridículo enquanto se crê sério.

Ao mesmo tempo, essa mentalidade me irritou por identificação. Acima disse que conhecera pessoas semelhantes às do livro; pois bem, vi que tinha algo de Ignatius em mim e isso me aborreceu. Descobri que não se pode mudar o mundo ao ausentar-se dele (trancado no quarto não se vai longe), descobri que o objetivo de toda moral deve ser o de conciliar a humanidade e que quem exclui outro de si em definitivo é para o prejuízo dessa moral.

Mas esses pensamentos tive depois. Quem quiser ler Uma confraria de tolos somente pela comédia, não lhe faltará graça. O único problema do livro é a metade, quando o estranhamento e a graça iniciais dão lugar à repetição e nada novo parece surgir disso tudo. Alguns capítulos poderiam ser cortados sem prejuízo para o entendimento nem para o andamento da narrativa. Já no fim novos acontecimentos dão aquela energia e fluidez primeiras, então a leitura volta a correr fácil até a última página.

Para quem não conhece, fica a dica deste livro, para quem gosta de humor e especialmente para quem gosta de críticas a certas manifestações intelectualoides que, por azar, podem estar mais próximas do que se imagina.

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