Voices of Light, de Richard Einhorn

Richard Einhorn compôs Voices of Light para acompanhar a exibição da cópia recém descoberta e restaurada de A Paixão de Joana d’Arc, e devido à sua beleza – apesar da simplicidade – esta obra tem ganhado cada vez mais espaço por si só e merece uma visita com atenção.

Pontos principais:

  1. Muito bem composta, apenas tem a ganhar com o acompanhamento do filme;
  2. Soa de maneira graciosa e sem exageros;
  3. Contém passagens de profunda comoção;
  4. As letras são de textos originários da época, dos registros do julgamento e de cartas da própria Joana;
  5. Pater Noster, Torture, Illness, Sacrament e Relapse.

Para completar a revisão de A Paixão de Joana d’Arc, comentarei a dica de trilha sonora dada naquela postagem. Trata-se de uma sugestão porque não existe uma trilha oficial do filme; A Paixão é repleta dessas curiosidades: a edição original permaneceu desaparecida durante décadas e foi descoberta em um manicômio norueguês em 1981, então quem lhe assistiu antes desse ano viu apenas as tomadas rejeitadas na primeira seleção.

Com a redescoberta do filme, muitos compuseram trabalhos para servirem de trilha. Richard Einhorn foi um dos que se dedicaram à tarefa, quando ainda na década de 80 ele trabalhava em uma peça sacra que tomou um rumo distinto depois de seu autor ter visto A Paixão. Não é raro que os compositores contemporâneos busquem temas religiosos, notem-se Requiem For My Friend, de Zbigniew Preisner, e Lux Aeterna, de Mortem Lauridsen, e Passio, de Arvo Pärt, entre outras composições.

Nesse contexto Einhorn criou Voices of Light, um oratório para acompanhar ao vivo o filme ou para ser interpretado só, pois não é exclusivamente uma trilha sonora. É, mais do que isso, uma música inspirada pelo vídeo. Ela tem espírito próprio e por isso não perde sua capacidade de emocionar mesmo quando desacompanhada.

O grande mérito de Einhorn foi desenvolver uma linguagem que transmitisse o conteúdo imagético dentro da música; as 15 faixas seguem a sequência das cenas e traduzem-nas por meio do tom empregado, pela intensidade ou pelas vozes e instrumentos escolhidos. Como ilustração: quando Joana tem a fala, ouvem-se flautas, oboés, além das vozes da soprano Susan Narucki e do coro feminino do Coral de Rádio do País Baixo em uma melodia doce, porque essa é a essência da mártir, essas são as vozes em sua mente.

Já as faixas correspondentes aos inquisidores ganham um tom grave e soam mais intensas com o acréscimo das cordas do quarteto Anonymous 4, da Filarmônica de Rádio do País Baixo e das vozes da seção masculina do coro. Por fim, as cenas de tortura e da fogueira são encorpadas com toda a orquestra e com todo o coral para darem a dramaticidade necessária à ação.

Voices é um oratório onde cada personagem tem características e temas diferentes, portanto a obra ganha também um teor operístico. Pode ser considerada uma ópera minimalista, pela influência da música medieval (percebem-se indícios de canto gregoriano e trechos de uma viola de gamba) e pela própria redução do conjunto. Toda a execução envolve apenas 2 flautas, 2 oboés, as cordas, o coro e 4 solistas vocais, isso para aumentar a realização de performances e torná-las mais fáceis.

Apesar de ter uma composição simples, é uma obra de muita beleza e sensibilidade. As passagens voltadas a Joana tem o mesmo peso das lágrimas de Falconetti. Boa parte dessa eficácia se deve à interpretação das letras, todas recolhidas de fontes seculares como os registros do julgamento, as cartas da Virgem de Orleáns, textos de escritoras místicas que viveram entre os séculos XII e XV, mais alguns trechos da Bíblia.

Para quem assistiu ao filme certos momentos de Voices são de extrema comoção. Durante o interrogatório, no qual a acusada se sente completamente isolada dos demais e procura como derradeiro refúgio agarrar-se à sua fé, então se ouve a faixa Pater Noster, que tem a seguinte fala:

«Filia mea dulcis michi; filia mea, delectum
meum, templum meum; filia delectum
meum, ama me: quia tu es multum amata
a me, multum plus quam tu ames me.
Et postquam ego colcavi me in te; modo
colca te tu in me.
Ista est mea creatura.»
– Angela de Foligno (mística e penitente do século XIII)

“Minha filha, meu doce; minha filha,
amada minha, templo meu; filha amada,
ama-me: pois te tenho muito amor,
muito mais do que tu me tens.
E depois de ter me recostado em ti,
agora recosta-te em mim.
Esta é minha criatura”.

Em seguida o oratório acompanha a tortura e a enfermidade de Joana. Logo surgem outros dois instantes de simplicidade e grande encanto, Sacrament, o sacramento, e Relapse, que trata do cansaço e desespero da acusada após sua condenação à morte. Por último há a explosão de sons e sentimentos na lenta caminhada em direção à pira e ao fim, uma passagem arrebatadora para quem só ouviu a música, mas muito mais para quem conhece a origem dessa inspiração.

Como veredicto fica que Voices of Light é uma composição longe de ser complexa e muitas vezes até minimalista, porém a construção da história por meio de música é garantia de beleza e comoção. Para maiores detalhes aqui está o sítio de Richard Einhorn e aqui está o libreto.

Ficha Técnica:
Obra: Voices of Light;
Compositor: Richard Einhorn;
Condutor: Ronald Hoogeveen, Steven Mercurio;
Intérpretes: Anonymous 4, Filarmônica e Coral de Rádio do País Baixo, Susan Narucki, Frank Hameleers, Johanna Rose, Marsha Genensky…;
Gravadora: Sony;
Lançamento: 1995;
Gênero: Erudita, Trilha Sonora.

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