O melhor episódio de Westworld

Qualidade e sucesso nem sempre são sinônimos em uma obra de arte. Há aquelas cujo apuro estético é inegável, mas surgem como um poema parnasiano de Alberto de Oliveira, que se acaba em si mesmo.

Há também as bem-sucedidas, a despeito de seus méritos, porque criam um mundo no qual o público deseja viver. Acredito que o sucesso de algo revele mais sobre nós do que sobre a coisa em si.

Westworld é uma obra que satisfaz ambos os lados. Cheguei a ela como muita gente: todos ao redor estavam falando dela…  Então fui conferi-la e caramba! que viagem!

Agora, antes que se irrite comigo por eu não escolher o melhor episódio da primeira temporada que você escolheria, tenha calma e lembre-se de que:

“You can’t always get what you want,
But if you try sometimes, well, you might find
You get what you need.”
– Keith Richards, Mick Jagger.

Do mesmo grupo de amigos que me recomendou a série ouvi o seguinte comentário: “no segundo e no terceiro episódios nada acontece”. De acordo com o IMDB, por exemplo, o segundo episódio – Chestnut – tem uma das notas mais baixas do público, 8,7, comparada aos 9,9 de The Bicameral Mind.

Por sinal, essas notas também têm algo a dizer sobre o sucesso que Westworld desempenha entre diferentes audiências. No geral, a série chega a receber 9,5 de públicos abaixo de 30 anos, mas desce para 8,7 a partir dessa faixa etária. Não é à toa que ela seja preferida pelas pessoas mais dispostas a transitarem pelo mundo criado por Lisa Joy e Jonathan Nolan, com base no conceito de Michael Crichton.

É justamente esse público mais jovem que se envolve mais com a história e com os seus enigmas, criando um universo ao redor: debates em fóruns e blogs, análises em vídeo e investigações em www.delosincorporated.com (Admin: reverie).

Mas assim que assisti a Chestnut soube que precisava escrever a respeito. Ao contrário do que me disseram, muita coisa acontece neste episódio e, diferentemente da avaliação no IMDB, ele é excelente e importantíssimo de uma forma especial.

Como assim?!

Vamos pôr em termos claros. Tudo o que assistimos em cinema e televisão é para termos algum senso de progressão, ou seja, para ver as coisas andarem. É por isso que às vezes nos frustramos, porque “nada acontece”, nada evolui. E existem três formas de progressão:

Progressão da ação: basicamente, o fator do qual somos mais dependentes. São os mistérios, as reviravoltas, os confrontos, as mortes de Game of Thrones, é Ross correndo para impedir Rachel de partir no avião… Ações são as raízes da Jornada do Herói e daí sua importância na construção de uma história cativante.

Progressão do caráter: ocorre muitas vezes em paralelo à ação. É o arco de cada personagem, de bom para mau e vice-versa, de canalha para apaixonado arrependido e por aí vai. Mesmo quando pouco ou “nada acontece” como em L’Avventura, de Michelangelo Antonioni, os caracteres em tela são a própria viagem.

Progressão da experiência: a mais rara das progressões, esta é uma expansão da experiência de assistir, ou ainda da vida como um todo. É a maior parte de 2001: A Space Odyssey (Stanley Kubrick, expandindo nossa visão sobre a vida, o divino e o c*** a quatro), de Enter the Void (Gaspar Noé, sobre drogas e a morte) e de Chestnut, de Westworld.

Westworld demonstra bem essas três progressões, o que ajuda a explicar seu sucesso. Uma série que dependa demasiadamente de uma só forma (como Game of Thrones), torna-se previsível, maçante. A única aparente exceção para mim é a Comédia, porque funciona à parte de qualquer evolução, dadas as suas bases em falhas de lógica – non sequitur etc. Ou talvez apele à progressão da experiência, mostrando por meio do exagero que tudo é um pouco risível e, logo, não devemos sofrer tanto.

Esta é a parte em que você se irrita porque ainda não falei do episódio em si.

Calma, pequena vítima da Economia da Atenção. Tudo o que falei até aqui foi necessário para finalmente afirmar que Chestnut é o melhor episódio da primeira temporada de Westworld porque é o que melhor trabalha a progressão da experiência. E os criadores conduzem-nos a vários níveis de experiência por meio dos personagens de William e Logan, recém-chegados ao parque.

William (Jimmi Simpson) é o personagem-espectador a quem são explicadas as regras do jogo sem o artifício de um narrador, como Ariadne de Inception (de Christopher Nolan, irmão mais velho de Jonathan). Logan (Ben Barnes) constantemente (nos) lembra: isso é só uma fantasia.

Contudo, há um nível superior de experiência, a nossa, como espectadores de uma obra que se desenrola. Nossa primeira visão de William é ao acordar, no início do episódio, no mesmo instante em que despertamos para o mundo que é a série Westworld. Isso ganha ainda mais significado em um diálogo a seguir:

William: Are you real?
Woman: Well, if you can’t tell, does it matter?

Aí está o cerne da série – e da ficção como um todo! O tempo todo somos lembrados de que é uma farsa, mas nem por isso torna-se menos comovente. Caso contrário, não nos compadeceríamos com as progressões de caráter que observamos já em Chestnut, primeiro em Dolores (Evan Rachel Wood).

E, talvez com maior força, em Maeve (Thandie Newton), porque o sofrimento humaniza as personagens.

Nesse sentido, Westworld pode ser lida de diversas formas, como a evolução da inteligência artificial, a relação entre Deus e o Homem, ou entre autor e personagem (ou ainda criador e obra), já que o show é repleto de referências a outras fontes. Em Chestnut temos Shakespeare, William of Okham e Hieronymus Bosch, por exemplo.

Dr. Ford (Anthony Hopkins) seria então um grande escritor diante da rebelião de seus personagens. Só que isso nos leva à questão: se são personagens, a rebelião não é predeterminada pela história? Há livre-arbítrio nisso?

Dolores: You said people come here to change the story of their lives. I imagined a story where I didn’t have to be the damsel.

Maeve: Time to write my own fucking story.

Há ainda outra leitura possível: é um comentário sobre a nossa relação com as séries que vemos, à procura de “cheap thrills, some surprises”. Talvez porque ao nos depararmos com o sentimento de que o mundo real não é aquilo que desejamos, em vez de criarmos consciência como na trama, visitamos a fantasia com esperanças de encontrar emoção o bastante para encararmos de novo o nosso pequeno loop.

Em Westworld, tudo o que vemos do “mundo real” é inexpressivo, veja-se a estação de desembarque.

E então há o cenário vívido do parque.

Além disso, as “pessoas reais” que frequentam o parque são vulgares ou monstruosas. Daí o comentário:

Maeve: Oh, Felix. You really do make a terrible human being. And I mean that as a compliment.

Essa ânsia de atingirmos o clímax em cada coisa que assistimos tem um custo. Para os hosts, é a prisão; para o espectador, é abrir mão da totalidade da experiência que a história proporciona, é desperdiçar o que “a bored mind can conjure”. Faço questão aqui de colocar na íntegra o discurso de Ford que encerra o episódio:

Ford: What is the point of it? Get a couple of cheap thrills? Some surprises? But it’s not enough. It’s not about giving the guests what you think they want. No, that’s simple. The titillation, horror, elation. They’re parlor tricks. The guests don’t return for the obvious things we do, the garish things. They come back because of the subtleties, the details. They come back because they discover something they imagine no on had ever noticed before something they’ve fallen in love with. They’re not looking for a story that tells them who they are. They already know who they are. They’re here because they want a glimpse of who they could be.

Há tantos detalhes para descobrirmos! Desde as nuances das interpretações até as pistas que a edição e a trilha sonora deixam no ar. E é nesse exercício consciente de reparar nas sutilezas da obra de arte que descobrimos quem podemos ser enquanto espectadores e, por fim, enquanto seres humanos.

O próprio show, quanto mais cresce em ação e twists, mas se afasta das pequenas observações dos episódios iniciais.

E não é que Chestnut peque nos dois outros tipos de progressão. Já mencionei que Dolores e Maeve têm consideráveis evoluções de caráter ao longo do episódio, assim como William. Primeiro, refere-se a Logan como amigo.

William: I don’t want to keep my friend waiting.

No decorrer do capítulo, porém…

Clementine: Sounds like your friend is having fun.
William: Well, that’s not the term I’d use.
Clementine: Fun?
William: Friend.

O que é mais importante aqui, a cena de sexo segundos antes ou esse importante indício de transformação? Por falar em indícios, Chestnut é cheio deles, colocando a arma de Tchekhov na nossa cara.

Tampouco desaponta pela ação. Temos duas sequências com o misterioso Man in Black, mostrando de uma forma muito efetiva o quão badass ele é nesse universo. A primeira sequência, aliás, brinca com uma frase posteriormente dita por Charlotte Hale: “Show, don’t tell. Isn’t that what you writers prefer?”.

Na cena em questão, a prova da habilidade de Man in Black (Ed Harris) acontece fora da tela, enquanto a câmera foca na reação de Lawrence (Clifton Collins Jr.). É a direção estimulando a nossa imaginação a preencher aquilo que não vemos, reflexo da cena entre Dr. Ford e o garotinho. Somente mais tarde no episódio é que somos saciados com a visão de fato das ações do personagem, que estão longe de ser belas. Um a zero para a imaginação.

Dito isso, convém ressaltar que a série também tem suas falhas. A edição deixa alguns cortes toscos, como nos 40 minutos e 46 segundos do oitavo episódio, embora tenha papel fundamental em esclarecer ou manter alguns mistérios ao longo da temporada. As falas sobre consciência de Ford são contraditórias com o caminho que ele traça e às vezes a câmera é visível em cena.

Do lado direito da imagem, um círculo preto sob o aparador.

Tais imperfeições não prejudicam o todo, porque Westworld promete muito mais em troca – e cumpre. Assim termina Chestnut, não com um cliffhanger, mas com uma promessa do muito que há para viver nesse mundo.

E você, o que acha disso?

 

Créditos das imagens: Westworld é uma produção de Bad Robot, Jerry Weintraub Productions e Kilter Films. É exibida originalmente pela HBO.

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