Whiplash, de Damien Chazelle

Até onde você é capaz de ir para tornar-se um grande artista?

Existe uma enorme lista de filmes sobre artistas verdadeiros ou ficcionais, mas poucas obras retratam sua dor como Whiplash – Em Busca da Perfeição, dirigido por Damien Chazelle e estrelado por Miles Teller e J.K. Simmons.

Alguns bons exemplos que consigo lembrar agora:

Andrei Rublev (de Andrei Tarkovsky);
Amadeus (de Miloš Forman);
Frida (de Julie Taymor);
Camille Claudel (de Bruno Nuytten);
O Cisne Negro (Black Swan, de Darren Aronofsky);
A cena do ensaio em O Libertino (The Libertine, de Laurence Dunmore).

Nem todo artista é igual nesse sentido, mas todo grande artista tem um traço em comum: só atinge a grandiosidade depois de muita prática e de muito sofrimento pessoal. Mesmo Amy Winehouse, que em todo o documentário Amy (de Asif Kapadia) parece descuidada com a fama, também reflete o papel da dor ao criar.

“A virada aconteceu quando eu comecei a compor o material do novo disco [Back to Black]. Eu componho porque sou zoada da cabeça e preciso colocar no papel, aí eu componho para me sentir melhor comigo mesma. Tirar algum proveito das coisas ruins.” (Amy Winehouse)

Isso porque ela percebeu a distinção entre fama e grandiosidade. Fama é fazer o que os outros esperam de você enquanto artista; grandiosidade é fazer por você mesmo.

“Sucesso para mim não é o sucesso da gravadora. Sucesso é ter liberdade para trabalhar com quem eu quiser. Poder mandar tudo pro inferno e ir ao estúdio quando eu sentir que preciso.” (Amy Winehouse)

Aí chegamos a Whiplash, o segundo de três filmes sobre o mundo do jazz escritos e dirigidos por Chazelle, entre Guy and Madeline on a Park Bench e La La Land. Conta a história de Andrew (Teller), um jovem baterista com grandes pretensões artísticas, e a relação abusiva com seu mentor Terence (Simmons), professor “da melhor escola de música dos Estados Unidos”.

Logo no início sentimos a importância da música para Andrew. Ela já está lá quando sequer conseguimos vê-lo. Interpretamos que a música precede qualquer outra escolha em sua vida e, por mais que nos aproximemos lentamente dele, somos tão espectadores de sua vida quanto seus amigos e sua família.

Chazelle e Sharone Meir (o diretor de fotografia) usam muito bem a bateria para reforçar essa distância. O instrumento tem essa particularidade de formar uma barreira, portanto vemos o músico sempre semioculto por trás dela.

Daí em diante Whiplash desenrola-se de uma forma similar ao Cisne Negro: o protagonista recebe uma oportunidade de destacar-se, enfrenta a concorrência para consegui-la, precisa fazer escolhas para conseguir seu objetivo… No caso de Andrew, é querer ser comparado a gigantes do jazz como Charlie Parker e Buddy Rich.

Embora ele tenha momentos de alegria, como no relacionamento com Nicole (Melissa Benoist), o jantar com a família é um momento decisivo. Ali, cercado por seu pai, um escritor mal-sucedido, e por outras pessoas que considera medíocres, Andrew posiciona-se sobre qual caminho seguir. Depois de derramar o primeiro sangue, não há caminho de volta.

Andrew (sobre Charlie Parker): Eu acho que a ideia de ser o maior músico do século XX é a ideia de todo mundo de sucesso. Eu prefiro morrer bêbado e falido aos 34 e as pessoas falarem sobre mim, do que viver rico e sóbrio até os 90 e ninguém lembrar quem eu era.

A partir dessa escolha ele precisa fazer sacrifícios. Um deles é abdicar das felicidades de uma vida convencional e afastar-se das pessoas mais próximas, para dedicar-se somente à bateria.

Isso é representado no término da relação com sua namorada. Esta cena é um exemplo das pequenas porém incríveis ideias que Chazelle tem ao longo do filme. Ela começa mostrando o close de Andrew e corta para Nicole, distante por trás do ombro dele.

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Então, conforme Andrew mostra-se cada vez mais frio, é ele quem termina longe da câmera, enquanto ora estamos perto de Nicole, a figura mais humana. Ou seja, mesmo que nada fosse dito pelos atores, a narrativa visual revela o conflito – e para qual lado pende.

Andrew: Eu prefiro terminar com você agora, porque eu quero ser grande.

Whiplash é tão intenso que é difícil reparar em detalhes como este, ou na forma como o diretor monta o acidente para surpreender-nos. Para conseguir o efeito, a câmera tem um movimento contínuo do perfil de Andrew ao close no celular e de volta ao perfil, com o caminhão já atrás. Se não houvesse essa passagem de foco pelo banco do passageiro, veríamos o caminhão aproximando-se e a surpresa seria menor. E tudo isso sem cortes!

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Depois de se ferrar de todas as formas possíveis, o protagonista e a audiência fazem-se a pergunta do início deste artigo: até onde você é capaz de ir para tornar-se um grande artista? Do que você abrirá mão para conseguir o que quer e, uma vez conseguido, vale mesmo a pena?

Terence, num papel extraordinário de J.K. Simmons, pelo qual recebeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, tem sua resposta:

Terence: Não existem duas palavras mais prejudiciais do que “bom trabalho”.

Por isso ele não tem papas na língua, xinga todo mundo sem parar e chega a abusar fisicamente e emocionalmente de seus alunos para que algum deles seja “o próximo Charlie Parker”. Sua conclusão é que, sim, todo sacrifício é válido para alguém se tornar grande. Esta é a visão da arte como alma do mundo, obtida à custa das almas dos artistas.

Terence: As pessoas se perguntam por que o jazz está morrendo…

Mas é só o artista quem decide se trilhará esse caminho. Você pode escolher a fama (como um Mefisto), ou até mesmo ficar no terreno mais seguro para si e nunca arriscar aquele passo além (como Andrew poderia ter feito). Apenas saiba que se escolher pela grandiosidade você precisará enfrentar o sofrimento do jeito que ele vier, e também aprender a tirar dele algum proveito. Nesse caso, Andrei Rublev é um filme que fortalecerá sua fé durante a jornada.

E Andrew tem sua fé recuperada numa das sequências musicais mais empolgantes do Cinema. Se a edição vibrante, ágil e ritmada já era uma nota alta da projeção, em toda a cena final ela comprova porque jazz é jazz e, sobretudo, porque arte é arte. Esse é um dos milagres de Whiplash, fazer o espectador sentir e apreciar a música. E que música!

O fim coroa um filme com uma direção cheia de novas ideias, atuações espetaculares, edição e trilha sonora impecáveis. Whiplash é o tipo de arte que faz você querer ser artista.

Ficha técnica:
Título: Whiplash – Em Busca da Perfeição / Whiplash;
Direção: Damien Chazelle;
Elenco: Myles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist;
Roteiro: Damien Chazelle;
Cinematografia: Sharone Meir;
Edição: Tom Cross;
Música: Justin Hurwitz;
Produção: Bold Films, Blumhouse Productions, Right of Way Films;
Ano: 2014;
País: Estados Unidos;
Gênero: Drama, Musical.

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