Who’s Next, de The Who

Após o sucesso de Tommy, a banda britânica The Who lançou em 1971 o álbum Who’s Next, que superou seu predecessor tanto em musicalidade quanto em conceito.

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Para ouvires durante a leitura:

Pontos principais:

  1. The Who em sua melhor forma;
  2. O gênio de Townshend sem limites;
  3. A bateria eletrizante de Keith Moon;
  4. As letras e a história por trás delas;
  5. Os sintetizadores daqui são marcos do Rock;
  6. Baba O’Riley, Behind Blue Eyes e Won’t Get Fooled Again.

Em 1969, conquanto The Who já fosse conhecida, não era levada muito a sério. Contudo, graças ao gênio inovador de Pete Townshend, guitarrista e líder musical do grupo, a banda deixou de ser apenas outra em meio a um cenário cada vez mais profícuo e transformou-se em uma das maiores e mais influentes do Rock. Isso porque no ano de 69 ela lançou Tommy, uma espécie de Rock-Opera a contar a história de um garoto cego, surdo e mudo que era um Pinball Wizard e acabara por se fazer guru espiritual.

As composições e letras de Townshend despertaram ainda mais a atenção do público, além de abrir os olhos da crítica. A banda enfim se divulgava como responsável por um trabalho sério, embora isso trouxesse a responsabilidade de manter-se nesse nível. Imediatamente após Tommy, Townshend começou a trabalhar em um projeto mais ambicioso e complexo que o anterior, que acabou por levar o músico a um ataque de nervos devido à sobrecarga nervosa. O projeto foi então abandonado.

Lifehouse teria o mesmo estilo de Rock-Opera e narraria a saga de uma família de fazendeiros escoceses a caminho de uma Londres distópica, onde os habitantes nunca saem de casa e vivem dentro de trajes especiais que simulam as atividades cotidianas e são conectados a uma rede central, controlada por um homem chamado Jumbo. Nessa distopia não haveria música, muito menos Rock and Roll.

Eles partem em direção a Londres para participarem de um festival musical chamado Lifehouse, no qual as informações biográficas e psicológicas de cada ouvinte seria coletada e transformada em música. Em outras palavras, seria um festival em que as pessoas seriam a própria melodia. No fim, a polícia cercaria o concerto e, para sua surpresa, a música de todos os ouvintes se juntaria em uma só nota e todos desapareceriam em um nirvana musical.

É um conceito bastante interessante; envolve uma boa porção de originalidade, outra de imaginação, mais outra de alguma filosofia oriental e até um bocado de rebeldia. Para simular a transmutação de personalidades em sonoridades, Townshend queria usar seus recém adquiridos sintetizadores, porém – depois de desistir de Lifehouse – ele teve de usá-los em outro álbum, adaptado da idéia original.

Surgia Who’s Next, provavelmente um dos usos mais conscientes de sintetizadores musicais. Algumas das composições já estavam prontas antes do guitarrista colapsar, portanto apesar de ser um álbum independente, muito dele segue a estrutura do projeto abandonado. A ordem das faixas foi alterada, músicas foram adaptadas ou acrescentadas, mas a temática distópica permanece.

Divulgação.
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Por exemplo, o álbum abre com a icônica Baba O’Riley, cuja introdução é perfeitamente reconhecível mesmo por quem não ouve The Who. A letra tem trechos como:

“Out here in the fields
I fight for my meals
I get my back into my living […]
The exodus is here
The happy ones are near
Let’s get together
Before we get much older.”
– Pete Townshend

“Aqui fora, nos campos
Eu luto por minhas refeições
Eu sustento minha vida […]
O êxodo está aqui
Os felizes estão próximos
Vamos juntar-nos
Antes que envelheçamos.”

Temos então a definição da história, a família de fazendeiros que sai de sua terra à procura de uma experiência única. Depois ouvimos o lamento em primeira pessoa de Jumbo, o controlador, em um caso de polifonia de vozes semelhante ao relato do campeão de pinball sobre Tommy em Pinball Wizard. Eis a primeira estrofe de Behind Blue Eyes:

“No one knows what it’s like to be the bad man
To be the sad man, behind blue eyes
No one knows what it’s like to be hated
To be fated to telling only lies.” – Townshend

“Ninguém sabe como é ser o homem mau
E ser o homem triste, atrás de olhos azuis
Ninguém sabe como é ser odiado
Ser fadado a contar apenas mentiras”.

A seguir, em outra grande passagem de sintetizadores, que aliás encerra o álbum, Won’t Get Fooled Again mostra-nos através de uma visão um tanto amarga os rumos equivocados que uma revolução como a de Lifehouse pode tomar. O mesmo serve para a vida real:

“We’ll be fighting in the streets
With our children at our feet
And the morals that they worship will be gone […]
I’ll tip my hat to the new constitution
Take a bow for the new revolution […]
There’s nothing in the street
Looks any different to me […]
And the parting on the left
Is now the parting on the right […]
Meet the new boss
Same as the old boss.”
– Townshend

“Nós lutaremos nas ruas
Com nossas crianças em nossos pés
E a moral que eles adoram ruirá […]
Eu tirarei o chapéu para a nova constituição
E saudarei a nova revolução […]
Nada há pelas ruas
Parece tudo igual para mim […]
E a partição da esquerda
É agora a partição da direita […]
Conheçam o novo patrão
Igual ao velho patrão.”

Nem só dos conceitos e das composições de Townshend o álbum sobrevive. Não estivesse acompanhado de músicos extremamente talentosos, é possível que seus planos falhassem pelo próprio arrojo. Who’s Next foi gravado com paixão e fúria, e no entanto soa com uma harmonia incrível.

Muito dessa fúria vem das características de seus integrantes: Keith Moon (um dos melhores bateristas do gênero) com seu estilo impulsivo e quase caótico de tocar; John Entwistle e seu baixo frenético; Roger Daltrey, enquanto não punha todo seu fôlego no microfone, fazia-o girar perigosamente ao alcance da plateia; além dos saltos, dos acordes sonoros e eventuais destruições de instrumentos por parte de Townshend.

E apesar de todo o fulgor, ainda sobra espaço para dois momentos de suavidade: a canção The Song is Over e o começo de Behind Blue Eyes. Dito isso, fica aqui a recomendação deste álbum que consegue ser melodioso e eufórico ao mesmo tempo. E consegue ser rebelde sem sacrificar a coerência, ou partir para utopias revolucionárias. Who’s Next é o resultado de uma produção séria (foi autoproduzido por The Who), sob a liderança de um compositor e letrista bastante capaz, associado a músicos da mais alta qualidade. É um álbum que serve a quem tem sede de Rock explosivo ou quem quer somente escutar boa música.

Divulgação.
Divulgação.

Ficha Técnica:
Álbum: Who’s Next;
Artista: The Who;
Músicos: Pete Townshend, Roger Daltrey, Keith Moon, John Entwistle… ;
Produtor: The Who, Glyn Johns;
Gravadora: Track, Decca;
Lançamento: 1971;
Gênero: Rock, Hard Rock.

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